06 novembro, 2014

O CÁRCERE


Que mais pode um homem temer do que este olhar ausente e vazio de S. Paulo na prisão, pintado por Rembrandt? A decrepitude da velhice está toda neste olhar.
S. Paulo foi muito mais do que um importante cristão. Ele é o próprio cristianismo, o inventor do cristianismo. Homem poderoso, culto, inteligente, activo, um infatigável lutador em nome de uma boa-nova que iria transformar o mundo. Ora, é precisamente isso que torna o seu olhar ainda mais trágico. Mais do que "um" olhar, é o facto de ser "o" olhar desse homem.
Apesar de profundo e da companhia daqueles enormes e sábios livros, este olhar está muito longe do olhar absorto e distraído de quem pensa, reflecte, analisa, deseja ou projecta. É antes o olhar de quem já não consegue pensar. Não é um olhar para dentro mas também não é um olhar para fora. É um olhar para lado nenhum, o olhar de uns olhos que já não olham, nem para o mundo, nem para os livros que repousam ali esquecidos.
A espada é apenas uma pálida recordação de lutas que ficaram enterradas no passado. O próprio pé descalço é mesmo um sinal de que já não irá caminhar como fez durante anos. Está, aliás, bem mais próximo de descalçar o sapato que ainda usa do que voltar a calçar o que já descalçou. Numa prisão não se caminha. Numa prisão também já não há nada para olhar e para pensar. Este S. Paulo na prisão mostra, afinal, duas prisões: a prisão propriamente dita e a prisão em que este homem se transformou.
Por muito que nos custe, a fase final da velhice é mesmo uma prisão em que se está descalço, sem mãos para lutar e olhos para olhar. Diz o Philip Roth que a velhice não é uma batalha mas um massacre. Contra o qual, exactamente como a espada de S. Paulo, nada há a fazer.