01 novembro, 2014

LUXÚRIA CELESTE


Hoje, dia de Todos os Santos, lembrei-me desta pintura de Jan Bruegel, o Jovem, na qual retrata o paraíso.  Não que eu associe os católicos santos a aves canoras, veados, patos ou leões. Acontece que ver no calendário um dia que é de todos os santos e não, como é habitual, de um apenas, leva de imediato o meu espírito a imaginar o céu habitado por uma pletórica corte celeste espojada aos pés da Trindade.
E o que tem que ver a corte celeste com esta pintura do Paraíso? Também não se trata de associar o paraíso celeste ao paraíso terrestre. Acontece que, ao contrário dos que repousam no incensado altar da santidade, barrocamente iluminados pelos holofotes da idolatria, os únicos seres humanos que surgem nesta pintura passam completamente despercebidos. Não parece mas estão ali mesmo dois seres humanos. Focando bem a nossa atenção conseguimos ver, ao fundo, o edénico casal, sabe-se lá a fazer o quê. Talvez a não fazer nada, apenas a existir, quem sabe, minutos antes do fracturante momento em que a metade feminina do casal oferece o proibido fruto à metade masculina. De qualquer modo, ainda em regime de bem aventurança.
A camuflagem de Adão e Eva no meio de toda aquela inconsciente natureza, lembra os versos de Propércio «A hera cresce melhor se espontânea, o medronheiro nasce mais belo nos antros solitários e o canto dos pássaros é mais doce sem artifício». Montaigne, para se referir à natureza de seres humanos ainda não manchados por complicações civilizacionais, recorre a uma bela frase de Séneca: «Homens vindos de fresco das mãos dos deuses» Ora, é precisamente isto que vemos em Adão e Eva, pessoas vindas de fresco das mãos dos deuses, estes sim, não os povos de que fala Montaigne, já imbuídos de uma cultura, ainda que tão diferente da nossa. Uma humana frescura e inconsciência que se confunde com a frescura e inconsciência da natureza. Adão e Eva existem tal como existem as plantas e os animais, fazendo parte de uma totalidade orgânica que os absorve, tal como um organismo absorve os alimentos.
É precisamente o contrário do que acontece com os santos. Os santos, querendo ultrapassar o pecado, vivem com o pecado colado à alma, daí o diabo ser uma personagem com tanto sucesso no mundo dos santos. Por isso, e ao contrário de Adão e Eva, que se esquecem de si, os santos dormem de olhos e ouvidos abertos, dormem em pé, disparam sobre as suas próprias sombras, vêem-se ao espelho, espiam-se a si mesmos, fazem de si o centro do mundo,  pois nos mais recônditos esconderijos da sua alma pode o demónio espreitar para fazer das suas. Daí que um santo queira ser um mar de virtude mas, ao mesmo, não deixa de ser o faroleiro que se ilumina a si mesmo. A sua virtude não é por isso uma virtude bem aventurada como a dos nossos avós genésicos, é uma virtude sofrida, e que precisa de estar bem iluminada para poder ser observada por si próprios e por todos os espectadores num concerto polifónico sobre um palco cuja católica luz origina a uma luxúria do espírito. O paraíso celeste está mesmo muito longe do paraíso terrestre, separados pela distância que vai de uma doentia consciência de si na corte celeste a uma inocente e impressionista inconsciência.