08 novembro, 2014

EVOLUÇÃO DAS CLASSES

August Sander | Desempregado, 1928

Foi durante um passeio pela montanha que Nietzsche teve, de repente, uma das suas grandes intuições metafísicas: a ideia do eterno retorno. Hoje de manhã passei por uma experiência do género só que no Lidl de Torres Novas, e em vez de uma revelação metafísica foi uma coisa assim mais sociológica.
À minha frente, na caixa para pagar, estavam três gerações de uma mesma família. Um casal de velhotes, pais de uma rapariga do meu tempo e que andará agora pelos 50, e o filho desta, rapaz para vinte e picos anos. Nunca falei com qualquer deles, mas Torres Novas é uma terra pequena e conhece-se muita gente de vista, como é o meu caso em relação a estas pessoas.
Posso dizer que naquela caixa do Lidl assisti a uma aula de história ao vivo. Lembro-me de ser miúdo e ver aqueles velhotes bem mais novos. Gente muito humilde, aliás, como ainda hoje. Talvez analfabetos ou com a 4ª classe no máximo. Uma vida de privações, exclusões, humilhações, muito abaixo da linha de água de uma vida digna. Já a filha, lembro-me dela na escola. Creio que deixou de estudar cedo (talvez o 9ºano) e tem um emprego no qual ganhará pouco. Mas eu olho para os pais e olho para ela e percebo que o fosso entre os primeiros e os sectores mais medianos da sociedade é muito maior do que no caso da filha. Esta há-de passar dificuldades, terá de fazer muita engenharia financeira para governar a casa. Mas o modo como habita a cidade nada tem que ver com o modo como os pais a habitavam ou ainda habitam. No modo como se veste, nos bens de consumo que os pais nunca tiveram, no modo como se dirige os serviços, pelos locais públicos que frequenta, em suma, pelo modo como constrói a sua identidade social. É humilde? É. Mas trata-se de uma humildade que já nada tem que ver com a humildade "neo-realista" dos pais.
E o neto? O neto é neto daqueles avós e filho daquela mãe. Não faço ideia do que faz, se trabalha, se é universitário. Sei que olho para ele e vejo qualquer um dos meus alunos. Não vou dizer que a sua vida é a vida dos colegas e amigos de famílias de uma classe média mais ou menos desafogada. Mas a distância que vai deste rapaz ao centro da normalidade é muito menor do que a da mãe e infinitamente menor do que a dos avós.
Entretanto, olho para a rapariga da caixa. Ser caixa num supermercado deve ser dos empregos com um valor social mais baixo. Ora, se comparar este nível baixo com os níveis mais baixos de há décadas, vemos enormes diferenças. Estes rapazes e raparigas estudaram 12 anos, alguns serão licenciados (ao contrário do que pensa a senhora Merkel, é bom ser licenciado, ainda que trabalhando numa caixa de supermercado). Trabalham num sítio limpo, quente no Inverno e fresco no Verão, divertem-se nos mesmos lugares nocturnos onde se divertem os outros jovens licenciados, passeiam mais do que os seus pais, vão por vezes a restaurantes com os amigos ou namorados/as, sacam filmes e músicas da net que os outros jovens licenciados vêem e ouvem, quando os seus avós nem televisão ou aparelhagem tinham, exilados que estavam dentro da própria sociedade.
Claro que a regressão social da classe média contribui para esta aproximação entre classes. Um bancário, um funcionário público, um professor ou até mesmo um engenheiro ou um médico já não são as figuras privilegiadas de um tempo em que grande parte da população vivia no porão do navio. Sei que aquele rapaz ou a empregada da caixa estão longe de considerar as suas vidas, de um ponto de vista social e económico, boa. Mas eu olho para a mãe e olho para os avós do rapaz e, a partir daqui, sou obrigado a reconhecer que a história, apesar de tudo, tem funcionado a favor dos que durante séculos, até há muito pouco, foram esquecidos por ela. É esta tendência que não se pode perder, por muito que isso custe a alguns.