16 novembro, 2014

DOCTA IGNORÂNCIA

Vivian Maier | Auto-Retrato

O senso comum vale o que vale. E o que é certo é que não podemos prescindir dele a fim de podermos viver as nossas vidas sem estarmos sempre a pensar por tudo e por nada. Daria muito trabalho e não seria nada funcional. As ideias saem, ouvem-se e lêem-se espontaneamente, e já está. Simples e eficaz. Mas também é verdade que, por causa disso, dizemos e ouvimos coisas sem pensar nos erros inerentes a esse modo espontâneo e pouco criterioso de pensar.
Por exemplo, diz-se nesta notícia que José Casanova era um homem simultaneamente «aberto à discussão das ideias e muito firme na questão dos princípios da linha política do partido», considerando-se mesmo, mais abaixo, ser ele «um ortodoxo». Pronto, lemos uma coisa destas e não nos surpreendemos, uma vez que passamos a vida a ouvir frases deste género. Claro que fica bem pensar assim mas não passa de uma fraude intelectual sem qualquer sentido. E nem sequer estou a pensar, neste caso concreto, no homem que escreveu, até morrer, coisas que o mais básico senso comum considera não terem pés nem cabeça sobre o muro de Berlim e o fim da URSS, ou revelar ódio e ressentimento pelas democracias abertas que lhe deram liberdade para ir a eleições e dizer o que bem entendia, ao contrário do que se passava nos regimes que tão «ortodoxamente» defendia, embora, claro, recusando fugir a uma boa discussão.
Há muito que deixei de acreditar na discussão. Uma discussão não é mais do que dois monólogos que, como duas linhas paralelas, nunca chegam a tocar-se. Dizia Goethe que «Os adversários acreditam que nos refutam quando repetem a própria opinião e não consideram a nossa». Uma discussão será sempre uma luta onde uma das partes pretende sempre mostrar à outra de que tem razão. A partir daqui a água fica inquinada e imprópria para beber.
Claro que existe uma possibilidade para a discussão, uma possibilidade, digamos, falsificacionista: discutir, não para tentar mostrar ao outro que temos razão, mas para, graças ao outro, podermos vir a concluir que não temos razão. É por isso que eu gosto mais de ler opiniões contrárias às minhas. Estar a ler quem pensa como eu é estar a ler-me a mim mesmo, um exercício solipsista que não leva a lado nenhum. Eu posso ler, sim, alguém cujas ideias irei partilhar, mas neste caso são ideias que não possuía anteriormente. Mas isso é diferente. É fazer chegar ideias de outros até mim, não ver-me ao espelho através das ideias de outros, ou simplesmente usar as ideias dos outros para confirmar as minhas.
Defendo princípios que me recuso a discutir por considerar absolutamente sagrados e inalienáveis? Sim, defendo. Trata-se, porém, de princípios num plano arquitectonicamente  tão elevado que se tornam consensuais, como a segunda fórmula do imperativo categórico kantiano. Mas se sairmos desse plano tudo se torna pantanoso e discutível. Mas discutir o quê? Defender a todo o custo as nossas ideias como num ringue de boxe? Não vale a pena. Vale a pena, sim, ouvir os outros para podermos estar sempre a aferir a nossa ignorância onde menos esperamos encontrá-la.