03 novembro, 2014

DEUS ME LIVRO


Com o avançar da idade, escandalizo-me cada vez menos. Porém, ainda há coisas como esta que me deixam com os nervos à flor da pele. Não é a ministra da cultura francesa não ler um livro há dois anos. É a polémica, a histérica perplexidade, os pedidos de demissão por causa disso.
Eu poderia invocar o facto de o ministro da cultura de Portugal nunca ter lido um livro na vida. Claro que o facto desse ministro da cultura não existir é uma boa desculpa para não ler, daí calar-me já. Mas a França tem uma ministra da cultura e dei comigo a imaginar o que pode isso implicar num imenso quadrado que vai do Canal da Mancha ao Mediterrâneo, da fronteira espanhola à alemã, com tantos milhões de habitantes e cuja riqueza cultural, o comendador Berardo me perdoe, deixa a nossa a um irrisório cantinho da Península Ibérica.
Um ministro da cultura antes de ser ministro da cultura é um ministro (que o Bloco de Esquerda me perdoe o horrível machismo da frase). Tem um ministério com vários andares de burocracia, tal como têm o ministro da defesa, da agricultura ou do interior. Então por que razão não se pede a demissão de um destes ministros se confessarem não ler um livro há dois anos, mas já se pede a da ministra da cultura, só por ser da cultura? Como os outros, tem uma agenda preenchida. Reuniões de trabalho, pareceres, relatórios e dossiers para estudar, legislação, cansativas deslocações por um país que não é propriamente o Liechtenstein, tem de tomar decisões importantes. Mas pronto, só porque é ministra da cultura tem de chegar a casa e ir a correr para o sofá ou a sanita para se sentar a ler um livro.
O cidadão francês não pode exigir à sua ministra da cultura que arrume a pastinha no ministério e vá para casa ler Balzac, o teatro de Racine ou de Ionesco, os romances de Michel Houellebecq ou Michel Tournier. Ao cidadão francês interessa que a sua ministra tome diariamente boas decisões no ministério e não que vá para casa ler em vez de estar a fazer sexo com o marido, a ver o Quem Quer Ser Milionário com a filha ou ir jantar a casa dos sogros.
O meu choque com a reacção à entrevista, lembra-me o choque que senti há muitos anos quando, durante um estágio da selecção, perguntaram ao João Pinto (o de Vilar de Andorinho) se ele andava a ler algum livro. Ele, claro, disse que sim. O jornalista, sacana, perguntou então qual era, tendo o jogador respondido que não se lembrava. Vale a pena relevar aqui duas coisas. Por um lado, a fascista e urbana arrogância de uma pergunta estúpida e inútil a um homem humilde que praticamente só sabia dar pontapés numa bola. Por outro, a pressão sentida pelo jogador e que o terá levado a mentir, como se receasse ser considerado anormal por não andar a ler um livro em vez de estar a jogar bilhar ou a ver filmes de acção.
Claro que a lógica da pergunta a uma ministra da cultura não é a mesma da que é feita a um jogador de futebol. Mas nas veias do escândalo por ela não ler, corre o mesmo sangue da pergunta ao jogador português. Ler não é apenas ler. Existe antes uma totalitária ideologia da leitura que faz com que as pessoas se sintam na obrigação de ler. Pior: se exibam com aquilo que lêem, mesmo que não tenham lido, apenas fingem ter lido. Claro que a pressão da leitura como forma de identidade e coesão social não é um fenómeno contemporâneo, encontrando-se já nos bens pensantes salões dos séculos XVIII ou XIX ou tertúlias do século XX. O que é significativo no século XXI, em que o vagaroso tempo da leitura foi substituído pela velocidade das redes sociais e de centenas de links, é, por um lado, uma massificação da escrita (tudo se escreve, toda a gente escreve, incluindo eu) e, por outro, concomitantemente, de uma leitura que é mais ficcional do que real, vivendo-se mais de aparências do que conteúdos. Produz-se industrialmente, sabem-se os nomes dos escritores e dos livros, lêem-se uns excertos breves em blogues e nas páginas de facebook das centenas de amigos cultos com quem se gosta de partilhar a imensa cultura e erudição que se tem. A partir daqui está instalada uma cultura literária e quem está fora dela arrisca-se a pagar um preço por isso.
Há muito que morreu o intelectual de esquerda que ia para o café de livro debaixo do braço, sendo substituído por uma indústria de fast food da escrita e da leitura, onde se come mal e à pressa, ou em que simplesmente se mastiga um pouco para se cuspir logo a seguir, mas que dê para ficar com o sabor na boca para depois se poder dissertar sobre os imensos livros que se lêem.
A ministra da cultura francesa foi honesta e admiro-lhe a franqueza. Trabalha muito e não tem tempo para ler nem para andar em infantis brincadeiras à volta dos livros. E os espíritos bem pensantes desta modernidade das aparências não lhe perdoam. Vale a pena lembrar Galileu quando criticava todos aqueles que se compraziam em viver num mundo do papel em vez do mundo real. A diferença é que naquele tempo o papel era mesmo lido, enquanto hoje é apenas pressentido. O papel aqui da minha vizinha Renova sempre tem mais uso.