19 novembro, 2014

CHUVA


Camille Pissarro | Boulevard Montmartre, Tempo Chuvoso, Tarde

Vou transcrever uma breve passagem de Lolita, o célebre romance que, como todos os célebres romances, é mais visto do que lido, seja na versão Kubrick, seja na versão Lyne.

A irmã mais velha da minha mãe, Sybil, que um primo de meu pai desposara e depois abandonara, servia na minha família imediata, como uma espécie de preceptora e governanta sem salário. Alguém me contou, mais tarde, que ela estivera apaixonada pelo meu pai e que, num dia chuvoso, ele se aproveitara despreocupadamente disso e já esquecera tudo quanto o tempo melhorara.

Façamos o seguinte exercício: ler de novo esta passagem mas omitindo «num dia chuvoso».
O que leva o narrador a falar de um «dia chuvoso» quando pretende apenas lembrar um affaire sem importância, muitos anos atrás, entre o seu pai e uma irmã da mãe que havia entretanto morrido? Talvez uma condensação narrativa que, sem quase nada dizer, cria um forte efeito dramático. Porquê, numa ficção, onde tudo é possível, a chuva em vez de um dia bonito? Ou isso em vez de nenhuma referência meteorológica? Tiramos a chuva e a acção, num plano objectivo, permanece intocável.
A chuva aparece para dar uma intensidade erótica ao breve encontro entre cunhados. Sem chuva, teríamos apenas um homem que se aproveita sexualmente de uma mulher apaixonada. Com a chuva, porém, há todo um ambiente. Graças à chuva, o escritor embrulha a cena num papel que dá um envolvimento completamente diferente ao que se passou nesse dia. Ao contrário de um dia de Sol, um dia de chuva apela ao recolhimento. O Sol pede rua, jardins, passeio, uma abertura ao mundo exterior, a chuva pede a confortável segurança do lar. E um lar num dia escuro de Outono ou Inverno tem uma atmosfera diferente de um lar com o Sol entrando glorioso pelas janelas.
Imaginemos uma tarde chuvosa, uma sala meio-escura. O barulho da chuva lá fora. Um ligeiro frio. A casa está fechada ao mundo e a escuridão da tarde chuvosa tem um efeito paradoxal: ao mesmo tempo que desvanece ligeiramente os corpos, acaba também por reforçar a atenção neles. O que se apaga ligeiramente na escuridão ou na sombra obriga a uma atenção maior. Ela está apaixonada por ele e não consegue dissimulá-lo no olhar. Ele, viúvo, percebe o desejo que emana daquele olhar e é arrastado por esse desejo como um objecto sem vontade própria na corrente de um rio furioso. Muito provavelmente, sem a chuva, ele nem teria reparado nela. Ou até nem estaria em casa. A chuva pede protecção e o instinto de protecção leva as pessoas a aproximarem-se.
Em La Poétique de l'Espace, num capítulo intitulado Maison et Univers, Gaston Bachelard cita uma frase de Baudelaire em Les Paradis Artificiels, a respeito da felicidade de Thomas de Quincey, «enfermé dans l'hiver» numa «cottage» do País de Gales: «Une jolie habitation ne rend-elle pas l'hiver plus poétique, et l'hiver n'augmente-t-il pas la poésie de l'habitation?» E Cita Henri Bosco: «Quand l'abri est sûr, la tempête est bonne.» Mais à frente é o próprio Bachelard que diz: «De l'hiver, la maison reçoit des réserves d'intimité, des finesses d'intimité (...). Le rêveur de maison sait tout cela, sent tout cela, et par la diminution d'être du monde extérieur il connait une augmentation d'intensité de toutes les valeurs d'intimité».
Eis o ambiente de uma chuvosa tarde parisiense que terá levado o pai do narrador a aproveitar-se da paixão, um aproveitamento certamente propiciado pela atmosfera chuvosa que cercou aquela casa, tornando-a num abrigo que abrigou aqueles dois corpos num abrigo comum.
Mais à frente, Bachelard afirma que «la maison prend les énergies physiques et morales d'un corps humain». Sim, é verdade. Mas também é verdade que o corpo humano não pode deixar de ser afectado pelas energias físicas da casa, induzidas pelas condições atmosféricas do exterior: a escuridão, a frescura, a humidade, o som da chuva, o som específico de cada matéria sobre um chão molhado.
É por isso que eu vejo este «num dia chuvoso» de Nabokov, como uma concentração de elementos narrativos dispersos numa única imagem, e não tanto como qualquer coisa de simbólico, traduzindo a tristeza de um aproveitamento sexual de um homem indiferente face a uma mulher apaixonada. Uma espantosa sugestão narrativa na qual muito se diz sem nada se dizer.


                                                     Camille Pissarro | Praça do Teatro Francês, Paris, Chuva