15 novembro, 2014

ARISTOI


Há pessoas em cuja morte penso bastante, não por achar piada à ideia de morrerem, mas precisamente o contrário: o meu medo de que morram. Depois, há aquelas em cuja morte nunca penso mas a qual me deixa perturbado quando acontece. E também há mortes que me deixam mais ou menos indiferente. É o caso de pessoas que conheço de vista ou de figuras públicas que não me aquecem nem arrefecem, embora nalguns casos sinta uma certa pena, por simpatizar com elas. Por fim, há pessoas de quem nunca me lembro que existem, com as quais nada tenho, mas, depois, ao saber que morreram, fico com uma estranha sensação de perda. 
Foi o que me aconteceu com a morte de D. Fernando Mascarenhas. Pronto, estou a fazer um bocadinho de batota: não é bem bem bem alguém de quem nunca me lembro que existe. Na verdade, há uma frase sua que li há muito numa entrevista e que de vez em quando gosto de citar. Não, não é aquela, bastante citada nos obituários, de uma carta ao seu herdeiro, em que ele lhe diz que primeiro deve ser um homem e só depois um aristocrata. É outra. Perguntando-lhe o entrevistador se sentia orgulho no título, respondeu que não, uma vez que nada fez para o obter. Orgulho, sim, sentia por ter tirado o curso de Filosofia pois teve de se esforçar bastante para o conseguir.
Claro que sentiria sempre admiração por ele, apenas pelo valor que demonstrou ao longo da vida, seja enquanto homem politicamente comprometido com causas justas, ainda que fora de um registo partidocrático, seja enquanto homem de cultura. Mas foi com esta frase que definitivamente me conquistou, não por eu a ler projectivamente, mas pela humildade e simplicidade que, aliás, revelou noutras afins, dignas de uma verdadeiro aristocrata, sendo reconhecido por todos os que com ele privaram.
Há pessoas politicamente comprometidos com causas justas, ou outras ligadas à cultura nas suas diferentes áreas, e que não passam de reles criaturas. Pessoas que podem escrever, pintar, esculpir, realizar, representar, dançar, compor, filosofar, criticar muito bem ou genialmente, ou organizar eventos culturalmente relevantes, mas que são uns trastes de pessoas com quem eu não gostaria de perder meia-hora da minha vida. Ser muito culto, especialmente inteligente ou militante de boas causas, sejam elas quais forem, não é, de longe ou de perto, um fim em si mesmo.
Quanto mais fui sabendo a respeito de D. Fernando Mascarenhas, mais o fui admirando. E apesar de ele ser um aristocrata enquanto eu não passo de um plebeu sem ter onde cair morto, ao saber da sua morte fiquei com aquela sensação de ter morrido um daqueles tios afastados que nunca conhecemos mas de quem ouvimos muito falar e pelos quais sentimos sempre uma profunda admiração. Ficando a mágoa, quando morrem, por terem deixado de existir.