09 novembro, 2014

ARBEIT MACHT AUFWACHSEN

Lewis Hine

Sim, esta mulher é irritante. Mesmo quando tem razão, e diga-se que até a tem muitas vezes. O que irrita nela é o fanatismo ideológico, obsessões e traumas de adolescência que se vislumbram por trás do que diz e que acabam muitas vezes por fazê-la perder a razão mesmo quando a tem.
Ora bem, o que me traz aqui não é o que diz sobre adultos que suspiram por uma eterna juventude e em cujas pueris cabeças continua a ecoar a voz de Marian Gold dos Alphaville, cantando "Forever young, I want to be forever young". Quero apenas partir do artigo, não para falar de adultos que não querem trabalhar mas da moderna aversão à ideia de crianças e jovens trabalharem, vistos quase como mártires ou sofrendo de lepra no caso de tal acontecer, como se pode depreender de notícias como esta, bem alinhada com a actual legislação laboral ou a mentalidade de uma população rendida aos valores do humanismo e do crescer com alegria. Pedindo desculpa pelo putativo egocentrismo, vou falar da minha experiência pessoal. Vale o que vale. Para mim, mais do que qualquer leitura ideologicamente desfasada da realidade ou, pior ainda, leituras de leituras.
Eu tive uma infância e adolescência bastante confortáveis materialmente. E, como todas as crianças e jovens, gostava de me dedicar a um rol de actividades lúdicas ou simplesmente de não fazer nada. Ainda assim, nas férias, ia muitas vezes para a loja do meu pai atender ao balcão e fazer recados. Com 11 e 12 anos, andava pelos bancos de Torres Novas a depositar dinheiro, a levantar ou depositar cheques e letras, ia aos Correios levantar encomendas, fazia outros recados importantes. E varria o chão da loja também. Foi há muito tempo, as falsas memórias podem trair-me, mas lembro-me bem de que ao desconforto de me levantar cedo e de muitas vezes não me apetecer fazer o que fazia, juntava o prazer de me sentir responsável, de conhecer o mundo, e de começar a fazer parte do mundo dos adultos, apesar de estar muito longe de lá chegar.
Trabalhei quase sempre nas férias até ao último ano da faculdade.Trabalhei, muitos verões, numa fábrica de tomate, na qual fazia trabalhos duríssimos, em turnos, fazendo uns bons kms de bicicleta para me deslocar, fosse para entrar à meia-noite ou para sair às 8 da manhã depois de uma noite a trabalhar no duro a carregar contentores. Ou às 4 da tarde depois de estar a trabalhar num secador de pele de tomate, cheio de poeira, com temperaturas mais indicadas para camelos. Por falar em camelos, trabalhei numa fábrica de rações para animais. Mas também numa oficina, num armazém de tecidos durante dois meses e tal no ano em que entrei para a faculdade, dei serventia a pedreiro, andei na apanha da maçã, sendo transportado até à herdade num tractor onde ia junto dos aldeões com quem trabalhava todo o dia debaixo de um Sol escaldante, almoçando no chão o farnel que levava. Raramente gostava de o fazer, preferindo bem mais estar a ler, a ouvir música ou ir para a piscina municipal nadar, apanhar sol ou jogar às cartas na esplanada com os amigos. Mas ganhava dinheiro, gostava de ganhar dinheiro, de poder gastar o meu dinheiro e aprendi como merecer ganhar dinheiro. Mais tarde, já bem adulto, viria a perceber a importância que na altura tiveram essas experiências no meu conhecimento do mundo, da sociedade e até da natureza humana. 
A minha filha acabou há meses a licenciatura. Inscreveu-se no mestrado, que começou a frequentar. Entretanto, surgiu-lhe a possibilidade de um estágio remunerado numa grande empresa. Dividida entre continuar o mestrado, ou seja, a boa vida de estudante, ou ir trabalhar, aconselhei-a a trabalhar. Não apenas pelo dinheiro mas pela experiência do mundo do trabalho. Não foi a sua primeira experiência. Não há muito tempo, esteve, durante as férias, a trabalhar na caixa de um supermercado do engº Belmiro, metendo em sacos de plástico o arroz, a fruta e os detergentes das suas ainda recentes professoras de matemática, português ou filosofia. E fui o primeiro a incentivá-la a fazê-lo, ainda que, para a jovem que gosta de acordar tarde e de se dedicar ao ócio, isso implicasse um sacrifício.
Confesso que gostaria de ser muito rico e de não precisar de trabalhar para me sustentar a mim a aos meus. Acontece que a maior parte das pessoas não é muito rica e precisa mesmo de trabalhar. Acontece igualmente que existe hoje, formal ou informalmente, um desejo de proteger os jovens do trabalho, começando desde logo pela impossibilidade de o fazer antes dos 16 anos, mesmo sabendo-se que muitos jovens de 13 ou 14 anos se arrastam infelizes pela escola quando poderiam assumir as verdadeiras capacidades numa oficina de automóveis ou num salão de cabeleireira.
A relação das crianças e dos adolescentes com o mundo do trabalho é hoje nula. Por um lado, porque não se pode, por outro, porque os pais acreditam que os filhos serão mais felizes se apenas brincarem, jogarem, divertirem ou estando simplesmente sem fazer nada. Mesmo ao nível das tarefas domésticas os filhos são muitas vezes protegidos, fazendo os pais o que poderia ser dividido por todos, por acreditarem que assim estão a proteger os filhos, sejam eles do Bloco de Esquerda ou de direita. 
Claro que o nosso imaginário laboral infantil é povoado pelos espectros de Charles Dickens, pelas fotos mais dramáticas de Jacob Riis ou Lewis Hine, pelo terrível trabalho infantil que noutros tempos roubava a infância às crianças de famílias miseráveis, fosse em fábricas insalubres, fosse no campo, a trabalhar de sol a sol e que, infelizmente, ainda são a triste realidade em muitos sítios do mundo. Mas os contextos mudaram e os pressupostos também. Eu detesto ideológicas planificações e não caio no desvario de defender que trabalhar deveria ser uma actividade obrigatória na formação pessoal e social de qualquer ser humano desde a infância. Mas acho que, sempre que possível, as crianças e jovens deveriam ter experiências profissionais, seja remunerada, não remunerada ou com remunerações simbólicas.
Como relata o Antigo Testamento, fomos expulsos do paraíso, tendo que trabalhar para podermos viver. Não é verdade que o trabalho liberte e desconfio daqueles que é a trabalhar que se sentem livres e acredito que a grande maioria das pessoas adoraria poder não trabalhar. Mas como dificilmente iremos voltar ao paraíso do qual fomos expulsos é fora dele, e quanto mais cedo melhor, que temos de aprender a viver.