25 novembro, 2014

A VIDA DAR UM FILME


Eu sei que é chato dizer isto: quase tudo o que fazemos enquanto cá andamos tem pouca ou nenhuma importância. Alguém se lembra do que estava a fazer às 10.37 da manhã do dia 29 de Setembro de 2010 ou às 15.46 da tarde do dia 28 de Setembro de 2009? Só espuma, microscópicas irrelevâncias, vazio existencial puro e duro. Se todos os movimentos quotidianos de uma pessoa fossem registados por uma máquina de filmar, obrigando depois outros a vê-los, nem que fosse só uma hora, seria um pesadelo. Verem-na a acordar, a tomar o pequeno almoço, a lavar os dentes, a tomar banho, a ir para o trabalho, no trabalho, às compras, a conversar, sentada a ver televisão. Até o sexo, já mesmo excluindo os preliminares, ao fim de 5 minutos seria algo fastidioso de ver.
Quando nasceu o meu primeiro filho, neste caso uma filha, comprei uma câmara para filmar o parto e o que viesse a seguir: a primeira papa, o primeiro dentinho, os primeiros passinhos, o primeiro banhinho na praia e outros marcos históricos condimentados com a baba parental. Um dia, foram lá a casa umas tias velhotas e eu achei que por serem tias e velhotas iriam ficar rendidas ao enredo do filme cuja única actriz se limitava a existir. Fechei as cortinas da sala e zás, sessão de cinema para a tarde de sábado. Passados alguns minutos, enquanto eu, embevecido, assistia mais uma vez ao grande filme da minha vida, olho para as tias em busca do seu deslumbramento, quando vejo as duas a tombar a cabeça na direcção dos umbigos como se tivessem tomado um boa dose de Lorenin ou um discurso de Jorge Lacão. Mas apesar do soco no meu orgulho de pai, foi uma lição. Que raio de interesse tem uma vida humana quando já nem umas tias velhotas lhe resistem? A resposta poderia ser "nenhum" e, de seguida, dar um tiro na cabeça. Mas também há a possibilidade mais agradável de acharmos que, pronto, está bem, na escura imensidão do espaço cósmico uma vida humana não tem interesse nenhum, mas sem que isso implique estoirar a cabeça com uma bala.
É verdade que grande parte dos nossos dias, semanas, meses ou anos têm tanto interesse como os momentos de um jogo de futebol interrompido por causa de uma lesão (excepto quando a realização, para ajudar a passar o tempo, mostra mulheres giras e com decotes generosos nas bancadas). Mas o céptico irá dizer que enquanto no futebol essas paragens são pontuais acidentes, os momentos mortos das nossas vidas são a sua principal substância, tornando assim a vida numa coisa aborrecida e sem sentido.
Mesmo assim creio que continua a ser uma visão demasiado redutora. A correcta analogia não deve ser entre a vida e as paragens de um jogo de futebol mas um filme. Se decompormos um filme nas suas múltiplas cenas e olharmos para elas de um modo avulso, iremos a assistir a uma exibição da mais pura insignificância. Só que, ao vermos todos esses momentos durante o contínuo visionamento do filme, fazemo-lo com prazer e até pagamos bilhete. Porquê? Porque o filme é uma condensação narrativa que faz com que naquelas duas horas todos os momentos insignificantes estejam submetidos a um sentido que os transcende. Por exemplo, na vida real não tem qualquer interesse ver um homem a estacionar um automóvel, sair, andar uns metros e entrar num banco ou numa repartição pública. Ou então ver uma mulher a caminhar sozinha numa praia. Ou um casal a fazer compras no supermercado. Mas se estivermos a ver um filme já acompanhamos esses momentos com interesse. Porque esses momentos quem, em abstracto, são insignificantes, encontram-se ali legitimados por uma lógica global que lhes dá um sentido e, consequentemente, uma densidade ou relevância narrativa.
Com as nossas vidas deveria passar-se a mesma coisa. Se isolarmos todos os seus momentos insignificantes, tornando-os avulsos, é claro que somos os primeiros a adormecer com a nossa própria vida tal como as tias velhotas a ver o vídeo da minha filha. Mas uma coisa são os factos, em bruto, materiais, objectivos, reduzidos à sua mais pura e elementar visibilidade, outra coisa é a percepção subjectiva deles.
Claro que a nossa vida não tem as duas horas de um filme, sendo neste tudo mais fácil. Só que não se trata de um problema de duração. Eu já vi filmes longos e muito parados muito mais interessantes do que filmes mais curtos e com mais acção. Porque o importante não é a duração nem as cenas em si mas o que dá sentido a essas cenas. Com a vida é a mesma coisa. Imaginemos uma pessoa que morre aos 90 anos e que fez as mesmas coisas de uma outra que viveu 50, só que durante mais anos. Exteriormente, podem ser iguais, mas o seu sentido é bastante diferente. Porque o importante não é o que se faz mas o que está subjacente ao que se faz, o projecto que alimenta o que se faz.