20 novembro, 2014

A MENTIRA DA VERDADE

Geof Kern

Quando num teste apresento itens de verdadeiro/falso, os alunos perguntam sempre se é apenas para justificar as falsas, mas num tom que percebo ser mais de confirmação do que de verdadeira pergunta. Eu faço o meu habitual ar surpreendido e pergunto por que não se há-de justificar também as verdadeiras. 
Eu percebo o problema deles: habituaram-se a associar estes itens a questões de tal modo fechadas e factuais que impedem a possibilidade de justificação no caso de serem verdadeiras. Se lerem que a capital de Itália é Estocolmo, não custa justificar a sua falsidade e corrigi-la. Mas como justificar a verdade de afirmações como "A capital de Portugal é Lisboa", Luisão é jogador do Benfica" ou "O rio que banha Coimbra é o Mondego"? Daí eu compreender a sua dificuldade com a justificação de afirmações verdadeiras, dando-lhes algum desconto por isso..
Interessante agora é fazer uma analogia entre esta isto e o que o comum dos mortais considera ser verdade e falsidade, uma vez que também aqui todas as energias mentais parecem estar só viradas para justificar falsidades.
Ao contrário do que se passa com falsidades, não temos o hábito de questionar o que acreditamos ser verdadeiro. Porquê? Porque a nossa relação com a verdade funciona automaticamente, mecanicamente, espontaneamente e não conscientemente. A verdade é tão óbvia que acaba por não haver espaço para a questionar. No fundo é o que se passa com a saúde e a doença. Quando não estamos doentes não pensamos que não estamos doentes. Daí não nos lembrarmos de questionar e depois justificar a razão de não estarmos doentes. Não questionamos porque o normal é não estarmos doentes, daí sentirmo-nos tão normais, tão normais, tão normais, que nem sequer reparamos que não estamos doentes. Mas com a doença tudo muda. A doença instala uma desordem na nossa vida, desordem essa que precisa de ser corrigida. Precisamos por isso de saber que doença temos e como se cura para podermos repor a ordem perdida. A doença, essa sim, leva-nos a questionar, a fazer perguntas, a querer saber e querer saber o mais e melhor possível.
De certo modo é isto que se passa com a nossa relação com a verdade e mentira. O que julgamos ser falso instala também uma desconfortável desordem no mundo, a qual precisa de ser denunciada, controlada e evitada. Daí precisarmos de estar bem conscientes dela e sempre pronto para a desmembrar através de uma boa justificação. Se um jornal der notícias falsas, rejeitamo-lo. Jamais consideraremos bom amigo uma pessoa que mente. Se uma pessoa diz mal de alguém que nós achamos bom, precisamos imediatamente de repor a verdade e não nos custa nada explicar porquê. Com a verdade nada disso acontece. A verdade alimenta-se de si mesma e é de tal modo óbvia que não sabemos como a pôr em causa para depois a justificarmos de um modo sólido e consistente.
Os alunos não sabem, e com razão, justificar o facto de Lisboa ser a capital de Portugal ou de Novembro ser depois de Outubro e antes de Dezembro. Também para o comum dos mortais, aquilo em que acredita é muitas vezes não passível de justificação, transformando em verdades fechadas e factuais, ideias cuja falsidade é facilmente explicada por quem nelas não acredita.