12 novembro, 2014

A CRISE DAS HUMANIDADES

Eugene Smith | Série Country Doctor, 1948

Mrs Carey era de opinião que só existiam quatro profissões dignas de uma pessoa educada: o Exército, a Marinha, a Advocacia e a Igreja. Acrescentara a Medicina, que seu cunhado praticara, mas sem esquecer que, na sua mocidade, ninguém considerava o médico um cavalheiro. As duas primeiras estavam fora de questão e Philip não queria ordenar-se. Só restava o Direito. O doutor da localidade observara que muitas pessoas distintas já se dedicavam à engenharia, mas Mrs Carey opôs imediata objecção à ideia  Somerset Maugham, Servidão Humana

Isto era no século XIX. O que as coisas mudaram desde então! Sim, custa a acreditar, mas houve um tempo em que médico ou engenheiro não eram profissões socialmente distintas. Mas há muitas coisas nas quais custa acreditar só porque não estamos habituados, como há outras nas quais acreditamos só porque estamos habituados, embora devesse ser difícil nelas acreditar.

Imaginemos que médico era uma profissão mal paga e indigna para pessoas de uma classe social privilegiada. Sei lá, por se ser obrigado, tal como uma prostituta, a tocar intimamente em corpos de pessoas estranhas, pelo seu contacto com doenças ou, no caso de um cirurgião, por ter um contacto directo com sangue, pus, secreções, gorduras internas, vísceras e outras partes repugnantes do corpo humano. E mal paga por isso.  
Imaginemos, em contraste, que ser ignorante em História seria estigmatizante. Que sabê-la, e quanto mais melhor, seria uma qualidade estruturante de pessoas com ascendente social, na mesma linha de saber estar à mesa, saber falar e conhecer regras básicas da boa educação. E que assistir a conferências de História seria tão normal como ir ao cinema e que havia revistas de História como as há cor de rosa para ler em consultórios médicos e salões de cabeleireira. Não saber História seria alvo de chacota e, dentro das classes médias letradas, ser coisa tão impensável como assistir a concertos do Tony Carreira ou concorrer ao Preço Certo para ganhar um automóvel. Fosse assim, o que aconteceria com os nossos melhores alunos no que diz respeito às suas opções académicas? Muito provavelmente iria ser necessária média de 18 para os cursos de História, lutando os melhores alunos por uma vaga, pagando muitos deles explicações de História para poderem terem notas mais altas. 
O que, porém, acontece, é o contrário. A Medicina, algumas engenharias, Economia ou Gestão de Empresas em certas universidades, são, hoje, para as classes médias, um bom exemplo daquilo a que Jürgen Habermas chama de “publicidade representativa”. Se numa família de ilustres médicos, advogados ou banqueiros, um filho médico trabalhar no centro de saúde de Benfica do Ribatejo, tal representa uma despromoção social que corta a linha sucessória da família. Mas, se já pensarmos numa família da classe média, a Medicina, por exemplo, é uma porta para um nicho social privilegiado, financeiramente, mas também simbolicamente, ainda que os nossos ex-geniozinhos passem horas a medir a tensão arterial a velhinhas humildes no centro de saúde de Benfica do Ribatejo.
Muitos jovens irão assim para Medicina, pois o seu percurso estudantil os “obriga” a não rejeitar uma tal oportunidade, tal como noutros tempos dificilmente se rejeitaria um título nobiliárquico. Rejeitá-la será assim tão difícil para o jovem como para a família. E tanto assim é que não se trata apenas de querer ter mais de 18 valores para ir para Medicina. Acontece igualmente muitos jovens sentirem pressão em ir para Medicina só porque tem mais de 18 valores, sendo as próprias famílias agentes de pressão nessa escolha.
Pronto, tudo isto vem a propósito da chamada crise das Humanidades e peguei apenas na Medicina para fazer o contraste com a rainha das licenciaturas, entre outras já referidas. A crise das Humanidades nada tem que ver com uma natural e fatídica predisposição e interesse dos jovens em relação às Ciências e Tecnologias, ou natural e fatídico desinteresse em relação às Humanidades. Basta ler um romance do século XIX para entender a importância de uma cultura humanista e artística que atravessa várias classes e profissões, sendo por isso invejável e digna de ser conquistada e alimentada. Quem nasce agora irá pensar que a apetência da esmagadora maioria dos nossos jovens pela Biologia, Física, Química ou Matemática, é resultado de um processo natural, quase inato, relegando-se as Artes e Humanidades para um plano residual. Mas não é, sendo antes resultado de representações sociais condicionadas por factores que lhes são alheios.
Há tempos aconteceu-me o seguinte. No supermercado encontro uma antiga colega com a filha, que está no 9ºano. Perguntando-lhe o que iria seguir a garota, respondeu a mãe que iria para Humanidades. Normal? Sim, se a mãe não o tivesse dito com o mesmo ar com que diria que a filha queria ser stripper numa casa de alterne e esta, ao ouvir a mãe, não tivesse aquela expressão de quem se sente a pessoa mais inútil e miserável do mundo.
Ora, o que aconteceu no século XX e sobretudo nas últimas décadas, para que isto pudesse acontecer? Como bem muito previu Nietzsche, esse homem que antes de enlouquecer tinha uma aguda visão anatómica da sociedade, o século XX foi marcado por uma ascensão das classes baixas, transformadas entretanto em classes médias. Em Portugal, tendo sido um processo mais tardio, essa evolução foi ainda mais gritante, sendo por isso fácil encontrar muito médico, engenheiro, professor, advogado ou arquitecto, filho de pais semi-analfabetos, com profissões social e economicamente desvalorizadas e com um nível cultural a roçar o ponto mais baixo da pirâmide. Outros valores e fins teriam naturalmente de emergir. A arte, a cultura, a erudição, uma educação humanista como alicerces de um estatuto social privilegiado, embora funcionalmente inúteis, teriam de sofrer com isso, sendo substituídos pelas ideias de empregabilidade e funcionalidade. 
Claro que o factor emprego é fundamental e não podemos ser insensíveis a isso. Se eu tivesse um filho a tirar Engenharia Informática  no IST e outro a estudar Antropologia, ou História ou Filosofia ou Literatura, teria naturalmente a consciência de que o primeiro teria mais portas abertas e isso deixar-me-ia satisfeito enquanto pai. Não estou, portanto, a criticar a humana, suficientemente humana, preocupação paterna pelo futuro dos filhos. Onde eu estou mais concretamente a pegar é na estrutural mudança mental e cultural que se adivinha por detrás deste novo paradigma científico-tecnológico-funcional e que pode ser irreversível e fatal para uma cultura que demorou séculos a construir e que serviu de suporte a toda uma civilização milenar. E, se assim for, acho que não será bonito de se ver.