21 novembro, 2014

A ASTÚCIA DA DESRAZÃO

Andrei Tarkovski | Sacrifício [fotograma]

Claro que entendo a perplexidade aqui expressa face ao fascínio do mal. Mas para compreender o fenómeno temos de virá-lo de pernas para o ar. O que move esta gente não é o seu fascínio pelo mal mas exactamente o contrário: o fascínio pelo bem. Um hiper-fascínio pelo bem, uma exacerbada relação com o bem. Matam, não por que queiram ser maus e se comprazam com isso mas porque a sua obsessão pelo bem os leva a querer extirpar o mal do mundo. E se riem e festejam quando matam, em nome de Deus, por vontade de Deus e para glória de Deus, é porque acreditam que o mundo ficou melhor e mais puro com a sua acção.
Também os cristãos das cruzadas agiram em nome do bem, as fogueiras da Inquisição eram acesas em nome do bem, as guerras religiosas europeias eram convocadas em nome do bem, o massacre de Lisboa ou a noite de S. Bartolomeu aconteceram em nome do bem, Robespierre agia em nome da iluminadíssima ideia de bem, os republicamos portugueses perseguiram os jesuítas em nome do bem, o projecto nazi foi em nome do bem, desinfestando o mundo das ratazanas judias, deficientes, comunistas, ciganos ou homossexuais, os genocídios comunistas na URSS, China ou Cambodja foram em nome do bem, ou, finalmente, o terrorismo europeu do Baader Meinhof ou das Brigadas Vermelhas, eram em nome do bem. Em última instância todos eles desejam reproduzir a lavagem do mal do grande e purificador Dilúvio do Antigo Testamento.
Nada disto tem que ver com acção tresloucada de um psicopata que tortura e mata por capricho. O psicopata, esse sim, sente um fascínio pelo mal pois o seu prazer é avulso, fútil, motivado por um desarranjo mental. Ou sente um fascínio pelo mal aquele sacana que todos nós conhecemos daqui ou dali, e que infecta os outros por interesse egoísta. Ou sente um fascínio pelo mal o empresário ou administrador que exploram os trabalhadores enquanto vivem uma vida de luxo, Ou o político, o banqueiro, o advogado que destroem todo o contrato social em nome dos seus públicos desinteresses e vícios privados. Isso, sim, revela um fascínio pelo mal motivado por um exacerbamento do eu.
Mas sempre que descentramos o eu, diluindo-se num ideal que o ultrapassa, seja de que tipo for, é o bem que nos motiva. Apetece dizer que, neste caso, o mal não é, como dizia S. Agostinho, uma ausência de bem. O mal, paradoxalmente, é uma hiper-presença do bem cujo objectivo é permitir a ausência desse mal.