23 outubro, 2014

VILEDA SEMPRE À MÃO

Quino | Guernica

Lembro-me de em miúdo ouvir dizer que a cozinha é a parte da casa que mais se suja e mais precisa de manutenção. Na altura isso soava-me vago e distante pois a cozinha era um país estrangeiro onde só entrava para ir ao frigorífico abastecer-me e regressar ao quarto. Mas tudo na vida se paga e, hoje, lembrei-me desse axioma doméstico ao andar de esfregona na mão a lavar o chão da cozinha. Eu não sou um fanático da limpeza doméstica mas se há coisa que não suporto é sujidade. Daí pegar com alguma frequência na esfregona ou num esfregão tipo Vileda para limpar a bancada.
Entretanto, deu-me para comparar este meu horror à sujidade com o facto de ser bastante desarrumado. Não suporto sujidade mas sou um autêntico desastre em matéria de arrumação, havendo dias em que a casa parece uma tenda de adolescentes rebeldes a fazer campismo selvagem. Cheguei assim a ponderar poder estar afectado por uma espécie de dupla personalidade: ser um mordomo inglês na cozinha mas um troglodita na sala. Fosse mulher e seria uma lady na cozinha e uma louca no quarto. Tivesse eu um psicanalista e talvez ele dissesse que sou um anal retentivo na cozinha mas um anal expulsivo na sala e no quarto.
Sei é que a parte mais hamletiana do mais introspectivo pedaço do meu cérebro não podia deixar passar em branco esta minha neurótica e maniqueísta inclinação para servir dois deuses rivais: o deus da limpeza e o deus da desarrumação. Ora, querendo meter alguma ordem na minha cabeça a respeito deste problema que me assola, fui salvo pelo meu pensamento político, apesar do esforço que tenho de fazer para me ver como alguém em cuja cabeça se vislumbram pensamentos. Mesmo assim arrisquei e, já sem esfregona ou esfregão na mão, fui-me dedicando ao assunto no meu habitual percurso a pé para a escola.
Percebi então que a minha filosofia política está directamente relacionada com a minha idiossincrasia doméstica: convivo muito bem com a desarrumação mas não suporto a sujidade. O que quer isto dizer? Ora bem, nós lemos Platão, por exemplo, o Górgias, e percebemos uma ordem geométrica no seu modelo de justiça, conceito estruturante do pensamento político. Daí ele associar a sociedade justa aos conceitos de harmonia, simetria, proporção. E que sociedade é aquela que propõe na República? No fundo é uma sala bem arrumada, com tudo em ordem, cada coisinha no seu lugar. Isto é bonito? É. Mas a história também mostrou que sempre que esta ideia de meter as pessoas a viver em moradias perfeitas, demasiado arrumadinhas e organizadas, pode significar um pesadelo para quem lá vive.
O filósofo e economista Amartya Sen, num livro chamado A Ideia de Justiça, fala desse perigo. Diz ele que perseguir a justiça perfeita através de instituições perfeitas acaba quase sempre por esquecer a sociedade real, explicando que «a justiça está ligada à maneira vai correndo a vida que as pessoas vivem e não apenas à natureza das instituições que as rodeiam» A justiça não é esquecida. Mas é preferível aplicar a nossa energia a lutar contra situações de clara injustiça do que andarmos obsessivamente a perseguir a justiça perfeita. Claro que isto implica uma certa desordem, desarmonia ou desarrumação social. Mas desde que estejam controladas e permitam, de facto, anular a possibilidade de uma insuportável desordem ou caos, o seu sentido de prudência pode revelar-se vantajoso em comparação com a ordem perfeita.
Pronto, é neste sentido que eu tolero a natural desarrumação da minha casa. Há uma desordem mas uma desordem que não me impede de aqui viver. Posso demorar a encontrar uma coisa porque o que hoje está aqui, amanhã está acolá ou até andar de rabo para o ar pelo chão à procura de uma peúga perdida. Mas isso não faz da minha casa um sítio impróprio para viver. Há desordem, sim, mas o esforço que eu teria de fazer para que houvesse uma ordem perfeita iria roubar o meu modo espontâneo de viver e que faz com que eu seja o que sou. Em suma, faria do meu dia-a-dia um insuportável pesadelo.
Agora, uma sociedade pode não ser perfeita mas exige-se que os seus elementos vivam de uma forma digna e decente. A dignidade e decência que eu exijo a mim mesmo dentro de casa. A minha casa pode estar desarrumada. Mas está limpa, não cheira mal, quem cá entra não fica com vontade de fugir. Ok, posso pedir desculpa pela desarrumação mas não ficarei com vergonha perante o convidado.
No fundo é isso que encontramos nas sociedades mais evoluídas. Não são sítios ideais, não há uma ordem perfeita, mas as pessoas têm acesso a um conjunto de bens sociais, impensáveis há 100 anos, que torna as suas vidas dignas e decentes. E é isso que temos de continuar a defender, impedindo as nossas actuais casas confortáveis de se tornarem casebres imundos onde não dá gosto viver. A política, a verdadeira e nobre política é também uma questão de higiene. Que implica combater a vileza com Vileda sempre à mão.