09 outubro, 2014

TEMPORALIDADE

Heinrich Kühn, 1912

Há quem encare com desprezo as conversas sobre o tempo. Pronto, aquela ideia de que se fala dele quando não há mais nada para dizer, evitando o embaraço de nada haver para dizer. Não concordo. Falar sobre o tempo é como falar de uma pintura ou música de que gostamos, em comparação com outras de que não gostamos. Dizer que se gosta mais do Verão, do calor, da praia, dos fins de tarde numa esplanada, nada tem que ver com o prazer de falar sobre as cores, cheiros e rituais do Outono, a neve, o crepitar da lareira, o prazer da chuva, ou ainda do prazer pelo renascimento sensorial que existe na génese de cada Primavera.
É mais legítimo conhecer uma pessoa pela sua estação do ano preferida do que pela profissão. A profissão nada diz sobre uma pessoa. Dez engenheiros civis podem ser dez tipos bastante diferentes entre si, e quem diz engenheiros diz professores de filosofia. Mas se um me disser que gosta mais do Verão ou Outono, já ficarei a saber mais sobre ele. Dizer que se gosta mais do calor ou do frio é tão revelador do mundo interior de cada um como dizer que se gosta mais de Rafael ou de El Greco, dos quartetos de Beethoven ou dos de Chostakovitch. Nós vivemos dentro do tempo, revestidos de tempo, embrulhados pelo tempo e falar do tempo é mostrar a nossa roupa interna com o mesmo prazer com que vestimos a roupa externa na nossa estação favorita. Ora, falar da nossa estação favorita e do modo como nos sentimos apaziguados nela, é mostrar como a nossa alma individual está em plena harmonia com o exterior, que se torna uma extensão daquela, tal como ver os quadro ou ouvir as músicas que são sentidos como uma extensão do que existe dentro de nós.
É muito mais profundo falar sobre o tempo do que discutir filosofia. Discutir filosofia é discutir ideias e as ideias são meras entidades ideais que nós adoptamos para podermos pensar e falar. Se eu disser que uma pessoa é um fim em si mesmo (Kant) que ao entregar-me a todos, não me entrego a ninguém (Rousseau) ou que ao leme do poder não podem estar sempre homens iluminados (James Madison), estou a falar de coisas que posso pensar mas não são minhas. As ideias atravessam-nos superficialmente, sendo apenas um resultado da mente humana. Já com o tempo nos sentimos comprometidos esteticamente, psicologicamente, existencialmente. Ainda bem que na nossa língua, ao contrário do Inglês ou Alemão, não há uma palavra para o tempo cronológico e outra para o tempo meteorológico. É giro poder traduzir Sein und Zeit por Ser e Tempo. Cheira a qualquer coisa como uma ontologia meteorológica que faz do homem um ser-para-o-tempo. A temporalidade é o seu território, faça frio, chova ou faça sol. E falar, mesmo que seja oralmente, do tempo, é ir ao mais fundo de nós próprios.