30 outubro, 2014

SOMBRAS

Catia Shausheva

Chegou a hora de comentar na aula o inevitável texto de Fernando Savater onde compara as formigas guerreiras com Heitor, um dos heróis da Ilíada, morto em combate por Aquiles. Volto pois a Tróia, depois de lá ter estado aqui mas agora para uma abordagem um pouco diferente.
Nas aulas tento ir sempre ao encontro das referências dos alunos. Desta vez perguntei se se lembravam do filme Tróia, aquele onde Heitor e Aquiles surgem como personagens principais. Entretanto, mal acabei de dizer isto, senti um arrepio no cérebro. Pronto, eu sei que não se sentem arrepios no cérebro, mas quero lá saber, um arrepio no cérebro é o que há assim de mais parecido com o que senti. E pensei "Ups, o Heitor e o Aquiles que eu conheço, os meus Heitor e Aquiles não são personagens de um filme para sacar da net ou para ver na SIC num sábado à tarde". Heitor e Aquiles são personagens de Homero, esse velho poeta grego que não ficou conhecido por fazer filmes em Hollywood. Aquiles e Homero são personagens míticas e literárias, e de um tempo tão afastado dos irmãos Lumière como a galáxia NGC 4414 do planeta Terra ou as fãs do Tony Carreira de uma sinfonia de Brückner, podendo eu também incluir-me neste grupo, pois, apesar de não ser fã do Tony Carreira, também não morro de amores pelas sinfonias de Brückner.
Detestei-me a dizer aquilo, senti-me a fazer uma cedência, a trair a história, a trair Homero, a trair a própria Literatura como forma elevada de representar o mundo e a vida. Mas pronto, isso é um problema entre mim e mim e ninguém tem nada que ver com isso. Mas não posso deixar de pensar numa coisa que me angustia.
Do mesmo modo que a língua passa por uma evolução histórica, fazendo com que significados posteriores se afastem dos seus sentidos originais, também conceitos, arquétipos, máximas, preceitos morais, mitos, se podem afastar desmesuradamente das suas origens. Embora possam partir de um conteúdo comum, também um filme feito em Hollywood no século XXI nada tem que ver com um texto poético escrito há quase 2800 anos, levando um miúdo a acreditar que o filme possa ter o mesmo tipo de origem de um qualquer filme de aventuras saído de um obscuro argumentista de segunda categoria a residir em L.A. Claro que a Ilíada é um clássico e, enquanto clássico, apresenta uma história sempre viva. O que lá existe continua a existir: a ira, o sentido do dever, a honra, a humilhação, a amizade, o amor, a traição, a família, etc. Coisas sobre as quais pode continuar a escrever um qualquer argumentista de segunda categoria a residir em L.A. A Ilíada, porém, foi mesmo escrita por Homero, retratando um mundo e uma história cujo sentido, naquele tempo, nada têm que ver com o sentido que possam ter no nosso. E nem sequer estou a pensar na essência literária da obra, bem distante da sua essência cinematográfica.
Do mesmo modo, se fizermos uma genealogia de muitas das nossas crenças, valores, códigos, acabamos por encontrar origens que, sendo causa de tudo isso, são alimentadas por sentidos que nada têm que ver com o nosso mundo. Significa isto que, mesmo acreditando que temos os pés bem assentes no chão, vivemos muitas vezes de ilusões no interior de uma caverna. Caverna que tanto pode ser a de Platão com as suas sombras projectadas na parede, como o Hades na Odisseia, onde as sombras são os mortos que por lá vagueiam sem eira nem beira.