08 outubro, 2014

RAZÃO E PRECONCEITO

Antanas Sutkus | Pioneiro, 1964

As ideias não se formam na cabeça do homem; voejam na atmosfera, respiram-se no ar, bebem-se na água, coam-se no sangue, entram nas moléculas e refundem, reformam e renovam a compleição do homem. Camilo Castelo Branco, A Queda de um Anjo


Quando dou a Alegoria da Caverna, peço depois aos alunos que me dêem exemplos de ideias ou crenças que muitas pessoas considerem verdadeiras mas que para eles sejam falsas, explicando, de seguida, e de um modo argumentativo, o que supõem ser efectivamente verdadeiro. Desta vez propuseram o racismo e a adopção de crianças por casais homossexuais, criticando os preconceitos que surgem em torno desses assuntos. Não vou aqui falar dos seus argumentos pois não é isso que me interessa aqui mas duas outras coisas.
Em primeiro lugar, o facto de a esmagadora maioria apoiar a adopção de crianças por casais homossexuais, acusando a posição contrária de preconceituosa. E se em relação ao racismo não vou ser ingénuo nem demasiado optimista, admitindo que possa haver, nalguns casos, apenas um generoso exercício de cidadania condicionado pelo moralmente correcto, já o segundo exemplo, pelo seu aspecto controverso, permite a cada um assumir a sua opinião sem constrangimentos.
Mas para além da estatística, há um dado que merece a pena registar: a naturalidade e serenidade com que se fala disso, mesmo entre os poucos alunos que são contra. E o que há décadas seria uma discussão impensável pelo seu carácter absurdo e bizarro, a começar logo pela impossibilidade mental de "casal homossexual", é hoje uma conversa pacífica, sem qualquer tipo de escárnio sobre "paneleiros", "panascas", "bichas" ou "larilas".
O que terá acontecido para que as atitudes dos jovens, sobretudo rapazes, mudassem assim tanto em poucas décadas? Serão mais racionais hoje do que há 30 anos? Pensa-se melhor hoje, reflecte-se mais hoje? Eram as pessoas socialmente formatadas por estúpidos preconceitos, enquanto hoje são guiadas pela luz da razão? Ou, como diria quem escreveu a Alegoria da Caverna, será que a doxa de outrora, a simples e superficial opinião, deu lugar à episteme, a um conhecimento sólido e racionalmente consistente? Não, apenas mudaram os preconceitos, e isto, independentemente da posição actual ser ou não mais justa e verdadeira.
Há 40 anos seria quase impossível aparecer um jovem a defender a adopção de crianças por casais homossexuais. Seria ele menos racional do que um jovem de hoje? Não, acontece que ele pensava assim porque era impossível deixar de acreditar em coisas que hoje nos parecem impossíveis de acreditar. Mas ao jovem de hoje também é impossível deixar de acreditar em coisas nas quais, no passado, era impossível acreditar: deixar de acreditar na igualdade entre o homem a e mulher, no direito de um cão a não ser maltratado pelo dono por sádico capricho ou no absurdo que é um professor primário poder agredir uma criança por dar erros ortográficos, coisas aceites outrora como naturais.
Vejamos o seguinte. Se há 40 anos perguntássemos a um jovem o resultado de 34+6:2 a resposta iria ser a mesma de um jovem actual: 20. Tanto um como o outro não podem não pensar em 20 e o mesmo se passa a milhões de anos-luz da Terra pois em nenhuma parte do universo 34+6:2 não pode não ser 20. Também parece impossível pensar hoje que a mulher não tem o mesmo estatuto do homem, que um cão pode ser maltratado apenas pelo capricho sádico do dono ou que um professor primário pode agredir impunemente um aluno. Mas impossível, porquê? Porque resulta de um processo racional que impõe essa conclusão tal como número 20 do exemplo anterior? Não, porque são opiniões espontâneas que não resultam de um exercício argumentativo puramente racional, levado a cabo por "sujeitos epistémicos" que pensam nisso da mesma maneira que pensam em 20 quando lhes perguntam o resultado de 34+6:2, mas de pessoas de carne e osso que pensam em função do que o ar do tempo as faz pensar e sentir. Neste sentido, uma opinião não deixa de ser tão constrangida como um resultado matemático, apenas o processo é diferente. Enquanto na matemática se trata de um constrangimento racional, neste caso, um constrangimento ideológico ou cultural.
De facto, parece-me justo e verdadeiro que a mulher tenha o mesmo estatuto do homem. Como me parece razoável a ideia de uma criança poder ser adoptada por um casal homossexual. Mas uma coisa é a tese, outra, o que a sustenta. Não deixo por isso de sentir uma enorme curiosidade sobre o que eu mesmo iria pensar há 40 anos se tivesse a idade que tenho agora. Apresentar um argumento racional e consistente, a começar pelo meu, talvez não seja mais do que um modo eufemístico de exprimirmos os nossos preconceitos.