22 outubro, 2014

PEQUENO MUNDO

André Kertész

Quanto mais velho, menos o mundo me interessa. Não, não estou alienado do mundo como se deslizasse o olhar vazio pelas paredes brancas de um hospício. Pelo contrário: quanto mais velho, mais valorizo o mundo. Acontece que o mundo se tornou demasiado grande, desmedido, esmagador. Hoje, o mundo é todo o mundo. O mundo na sua absoluta totalidade, sem sombras ou espaços inacessíveis à nossa consciência, um mundo que inventam diariamente, hora a hora, e que ajuda a preencher o vazio que tememos. Nós já não estamos no mundo, já não o pisamos com as rijas botas do quadro de Van Gogh. É o mundo que nos pisa, que entra em nós sem pedir licença, esmagando os contornos reais de que é feita a nossa existência. Como se o rio deixasse de desaguar no oceano para ser o imenso oceano a alagar com violência o leito do rio.
A vida é demasiado preciosa para perdermos tempo com a inutilidade. Não a bela inutilidade, a inutilidade que conforta e realiza mas a fútil inutilidade. Se num supermercado tivermos apenas 10 minutos para procurar meia dúzia de bens essenciais, não iremos perder tempo a vaguear entre prateleiras com coisas de que não precisamos, arriscando a não levarmos mesmo o que era preciso. Ora, é isso que muitas vezes acontece com o que está sempre a chegar de um mundo que se tornou infinito, desconcentrando-nos do essencial. Mas se o mundo é infinito, a nossa vida não o é, sendo uma perda de tempo andarmos entretidos com a espuma inútil que se dissipa mal a onda se estende pela areia.
Precisamos de saber coisas do mundo, até para nele nos orientarmos. Kant também alterou a sua rígida rotina para esperar o jornal que lhe trazia novidades de França. E também foi informado do terramoto de Lisboa sobre o qual, aliás, escreveu um texto científico. É bom estar informado sob pena de ficarmos mesmo alienados do mundo. Mas uma coisa é estar informado do que se passa no mundo, outra é sermos engolidos por ele. E se o mundo se tornou infinito, eu quero continuar a ser finito dentro dele e a viver livremente a minha finitude.