28 outubro, 2014

OS ESPECIALISTAS

Jillian Edelstein | Julian Barnes e Pat Kavanagh, 1991

Já tudo se disse sobre o juiz que considerou não ter o sexo depois dos 50 anos a mesma importância de outras idades, digamos, mais fogosas. Ora, eu já passei os 50 anos, sou por isso parte interessada e não posso ficar alheado do problema. Não para dizer o que já toda a gente disse. Nem para dar, como agora se diz nas arenas públicas da modernidade, o meu "testemunho pessoal", certamente "gratificante" para quem precisa de aprender e descobrir o mundo com as experiências dos outros. Não é meu apanágio abrir a minha privacidade ad humanitatem, não se espere por isso detalhes empíricos sobre o que faço, como faço ou quantas vezes faço.
Eu sou um animal sexuado que dá aulas de Filosofia. Mas é estritamente nesta última qualidade que venho aqui. Não venho assim falar de sexo, assunto que gosto mais de abordar na sua vertente prática, mas apenas de uma notícia assustadora como esta. A minha questão é a seguinte: em que raio se transformou a sociedade quando é preciso ouvir especialistas dizer que há sexo depois dos 50? Ou ouvi-los falar de "falta de informação" ou "distorção sobre o conhecimento acerca da sexualidade"? Conhecimento? Sexo é conhecimento ou é experiência? Claro que há produção científica ou produção de conhecimento a respeito do sexo, nomeadamente como funciona e como pode deixar de funcionar. Mas não é por haver conhecimento a respeito do meu cérebro que irá ser um neurocientista a dizer-me de que música devo gostar, o que devo querer ler, ou se é normal gostar mais de passear num bonito cemitério antigo do que num centro comercial. Tem que ver com a minha experiência, como o meu auto-conhecimento, com a minha personalidade.
Podem chamar-me exagerado, mas assusta-me uma sociedade em que as pessoas deixaram de saber o que fazer, precisando da opinião dos especialistas para tudo e para nada. Para o que devemos ou não comer, como devemos educar os nossos filhos, o que devemos fazer quando faz sol, o que devemos fazer quando chove e tantas outras que devemos ou não fazer, devemos ou não querer, devemos ou não gostar, em função do que nos é pacientemente explicado pelos especialistas.
Num ensaio sobre Turgenev (Turgenev and the Liberal Predicament) diz Isaiah Berlin que Bazarov, a personagem mais forte de Pais e Filhos, influenciou os jovens do século XIX como Werther os do século anterior. Acrescento eu, influência que nunca mais nos largou. Bazarov é um tipo irritante, que apenas acredita na ciência e despreza tudo o que são tradições, emoções, poesia, a vida das gerações anteriores, a alma da velha Rússia. Para Bazarov, dissecar uma rã é bem mais nobre e importante do que escrever poesia ou amar. Ainda que Turgenev tenha admitido sentir alguma simpatia pelo seu Bazarov, a verdade é que sai do livro bastante caricaturado. No fundo, não passa de um pobre diabo que pensa saber tudo mas, afinal de contas, nada sabe.
Eu não sou um daqueles tontos irracionalistas que vêem com maus olhos o trabalho científico. Pelo contrário, devo imenso à ciência e desejo mesmo que os cientistas trabalhem muito para inventarem e descobrirem coisas boas. Mas transformar a ciência numa religião, numa espécie de doutrinação contemporânea em que os padres foram substituídos por especialistas que, em cada esquina, lá estão para nos explicar, ensinar, justificar, orientar, não passa de um pesadelo do qual só desejo poder fugir.
As pessoas com mais de 50 anos já são suficientemente crescidinhas para saberem o que devem ou não fazer, sem terem de ouvir os especialistas. Os cientistas podem adorar dissecar rãs. Mas nós não somos rãs.