19 outubro, 2014

O ÚNICO E A SUA PROPRIEDADE

Romina Ressia

Obrigações familiares levaram-me hoje até um cenário campestre. Entretanto, passo por uma enorme romãzeira cujas romãs começaram a acenar-me e a pedir para eu as levar. Claro que a minha vontade era apanhar várias, mas o facto de estarem numa propriedade privada fizeram-me desistir. Não resisti, porém, a trazer uma: grande, robusta, orgulhosa das suas belas e elegantes cores outonais.
Mal chego, preparo a romã. Ter sido apenas uma e não várias alterou a minha relação com ela. Possuir uma romã não é o mesmo que possuir duas romãs, e muito menos dez romãs. Ser única tornou-a especial, valorizando-a, enriquecendo-a, sendo o impacto de a preparar e comer muito maior do que o impacto de preparar e comer uma romã entre outras que se vão sucedendo.
Eu sei que é impraticável, mas o ideal, quando vamos às compras, seria trazer apenas uma maçã, uma pêra, uma banana, um kiwi. Estar na cozinha, olhar para a fruteira  e ver apenas um fruto de cada espécie alteraria certamente o seu valor e a nossa relação com elas. A nossa relação com os frutos devia ser monogâmica, dedicarmo-nos apenas a uma maçã como se não existissem outras maçãs. Ir ao supermercado e comprar um quilo de maçãs é transformar as maçãs numa abstracção, numa fria massa aritmética  sem cor, cheiro ou sabor ainda que tenham cor, cheiro ou sabor. Mesmo depois, quando as comemos, cada maçã não passa apenas de uma maçã entre outras maçãs. Ora se fôssemos ao supermercado para trazer apenas uma maçã significaria trazer "a minha maçã".
Olhar, portanto, para uma fruteira e ver a minha maçã, a minha pêra, o meu kiwi, a minha romã, o meu cacho de uvas, permite transformar uma simples natureza morta numa natureza vívida, feita de frutos com uma identidade morfológica, exclusiva, frutos que esperam avidamente por mim e que estão ali individualmente por minha causa.
Não é por acaso que deixo mais facilmente apodrecer a fruta quando tenho muita do que quando tenho apenas uma peça. Olhar para a fruteira e ver muita fruta faz-me muitas vezes esquecer dela. Como se pudesse esperar. Se, pelo contrário, olhar e vir apenas uma pêra ou uma maçã, a tentação de a comer é muito maior. É quase como se sentíssemos compaixão pela sua solidão e a comêssemos para a salvar. Olho para aquela maçã e  penso que só existe aquela maçã e a consciência disso reforça a minha relação com ela. Tudo na vida deveria ser único. Teria certamente outro sabor.