11 outubro, 2014

O FOGÃO


Fui adiando, adiando, adiando, mas a placa do meu fogão metia tanto nojo que me convenci de que tinha mesmo de a lavar. Ainda recorri  à criatividade para ver se me safava: comecei por tentar reconhecer naquela mistura de cores, formas e texturas uma espécie de pintura contemporânea digna de um juízo estético. Não deu. Depois, entrar na cozinha e olhar de repente para o fogão para imaginar uma instalação em Serralves. Também não. Derrotado então pela minha própria lucidez lá tive de arregaçar as mangas para me pôr a esfregar o raio do fogão.
Esfrego, esfrego, esfrego, quando dou por mim a sentir um enorme prazer no que estava a fazer, o que me deixou perplexo e até assustado. Eu estou habituado a sentir prazer, vá, a comer, a ouvir música, a dar um passeio a pé numa floresta outonada, a ver o Benfica a marcar golo. Mas assistir, como se fosse um milagre, à imediata aparição do imaculado branco da placa sob a sujidade, expulsa pela força dos meus braços, deu-me uma lasciva sensação de omnipotência, como se a passagem do princípio da realidade para o princípio do prazer ficasse à mercê de umas simples esfregadelas.
Naquele momento, entretanto, ao ver-me de língua de fora, olhar satânico e agarrado ao fogão como se fosse o Rambo III com a metralhadora a limpar talibãs no Afeganistão, não resisti a um momento de introspecção de elevada e fáustica gravidade: "Zé Ricardo, como é possível? Tu, um professor de filosofia, um intelectual, um tipo que lê as crónicas do António Guerreiro e vê os filmes do Bergman sem adormecer, que falas da madalena do Proust com a mesma delicadeza com que a ministra das Finanças sobe os impostos, como é possível?"
Meti a mão na consciência e comparei este prazer com a neura com que fico quando tenho de passar a ferro, coser um botão ou dobrar a roupa. Eu, sendo um homem calmo, pacífico, de hábitos tranquilos, que detesta todo o tipo de violência, deveria detestar tarefas abrutalhadas que levam tudo à frente, e preferir passar a ferro enquanto oiço as sonatas de Beethoven ou filosofar tranquilamente ao dobrar a roupa.
Mas depois pensei: "Calma! Calma, que tenho a história do meu lado". Ok, quantos intelectuais ou pessoas ligadas à cultura fizeram, directa ou indirectamente, cedências à violência? Hitler, um homem que ficou conhecido pelo seu mau feitio, lia Nietzsche, adorava Wagner, pintura, e até pintou essas coisas tão amaricadas que são as aguarelas. Goebbels era filósofo. Lenine, um intelectual, uma das 58 pessoas do mundo que conseguiram ler a Ciência da Lógica, de Hegel, é o que se sabe. Estaline foi seminarista. Sartre assobiou para o ar perante o maoismo e outros tantos intelectuais franceses fizeram o mesmo perante os crimes do ex-seminarista. Kissinger é um fino intelectual de Harvard e o seu grande opositor, o General Giap, o terror dos americanos, era formado em Filosofia.
O que tem toda esta gente em comum? Ideias. Ideias e o desejo de as aplicar ainda que levem tudo à frente. Ideias simples, luminosas, inspiradoras, que não podem ser pervertidas pela complexidade e contrariedades da realidade. A realidade é o que é, mas as ideias, na sua imaculada pureza platónica, não podem ser manchadas por ela.
Toda esta gente, perante o poder mágico da revolução, deve ter sentido mais ou menos o que eu senti a limpar o fogão. O prazer de arregaçar as mangas para, em pouco tempo, poder ver o tão desejado branco, a ordem, a harmonia de uma sociedade limpa de todo o mal. E quanto mais força houver nos braços, mais rapidamente essa ordem surgirá. Claro que há os livros e as ideias dos livros. Essa gente é toda muito inteligente. Mas vale a pena esquecer a complexidade da vida inteligente só para poder ver, assim de repente, a realidade branca, e sentirem-se deuses a criar um mundo à sua imagem e semelhança.
A partir daí, o argumento a que recorri para legitimar o meu comportamento, foi precisamente aquele de que me servi para o renunciar. Apeteceu-me concluir que limpar um fogão não implica ficar com um fogão novo, um fogão imaculado, como se nunca tivesse sido usado. E que mais vale guardar parte dessa energia para quando voltar a sentar-me no sofá.