02 outubro, 2014

O ESPÍRITO DO CRISTIANISMO E O SEU DESTINO


O LABIRINTO


Eis, visto por Hans Memling, e pintado na flamenga e muito cristã cidade de Bruges por volta de 1470, o percurso de Cristo entre a sua chegada a Jerusalém e a aparição aos apóstolos no mar da Galileia. Pelo meio, podemos ver momentos como a expulsão dos vendilhões no templo, a última ceia, a traição de Judas, a morte na cruz, entre outros narrados nos Evangelhos. São, ao todo, vinte e três cenas.
Interessa-me aqui o jogo entre os planos diacrónico e sincrónico das vinte e três cenas numa só cena. A cena geral pode lembrar os Provérbios Flamengos, de Bruegel, onde, sincronicamente, estão identificados, não vinte e três, mas mais de cem provérbios. Mas trata-se de uma ilusão uma vez que falta a este uma lógica diacrónica, fundamental no primeiro. De acordo com uma inflexível cronologia, todo o quadro está marcado pela presença de vários "antes" e "depois". Cristo entra em Jerusalém antes de ir a Pilatos e vai estará perante este depois da última ceia. Há pois uma ordem sequencial que não pode ser alterada, uma vez que Cronos não permite grandes ginásticas com o tempo, feito, como sabemos, de aço inexorável.
Mas neste quadro de Memling podemos ver tudo num mesmo plano. Ganhamos assim a mesma perspectiva do omnisciente olhar de Deus sobre o mundo, um olhar sem antes nem depois, sem mistérios, incertezas, surpresas, pois toda a complexidade cronológica das vinte e três cenas é dominada pelo nosso olhar panóptico que impede quaisquer surpresas nas esquinas do tempo. Vemos a sequência, sim, mas convertida num momento único. Vemos as partes mas também o todo. Hegel bem poderia ter olhado para toda esta tensão dialéctica momentos antes de escrever que o "Verdadeiro é o todo", sobrevoado pelas asas da sabedoria quando por fim o Sol adormece no horizonte.
Exactamente o contrário de uma qualquer acção projectada no tempo, na qual existe um enorme feixe de possibilidades. Por exemplo, no momento em que nascemos podemos vir a ser tudo o que é possível ser. Depois, as possibilidades vão-se estreitando. Ou como no início de um jogo de futebol. Ninguém sabe o resultado. Mas no fim, olhando para trás, percebe-se tudo. Se gravarmos o jogo e o virmos ao contrário, do fim para o princípio, jogada a jogada, percebemos porque acabou 2-1. Mas que poderia ter sido 2-2 se no último minuto a bola não tivesse batido no poste. Antes do jogo começar, o tempo parece um confusão de fios enrolados uns nos outros. Depois, tudo se torna linear, coerente, um traço tão decidido como um rio que caminha para o mar.
É o mesmo com estes momentos finais da vida de Cristo, desde que entra em Jerusalém. O que vai acontecer? Ninguém sabe, só Deus. Mas, depois, todos ficamos a saber. Passamos a ter o olhar de Deus só que retrospectivamente. Do mesmo modo, sabemos hoje como sobreviveu o cristianismo a Cristo, destino que o pobre Quixote nazareno jamais poderia adivinhar mas que para nós, a posteriori, afigura-se tão natural e racional que até ficamos com vontade de dizer que o que é real é racional.

BLOW UP



No meio de todos aqueles bonequinhos dispersos pelas vinte e três cenas, vêem-se, nos dois cantos inferiores, duas figurinhas vestidas de preto. São eles Tommaso Portinari, banqueiro florentino, representante dos Medici em Bruges e que encomendou o trabalho a Memling, e sua mulher, Maria Baroncelli. É muito interessante o modo como ocupam ali o espaço. Estão destacados, não só pelo facto de se autonomizarem face àquele emaranhado de cenas e figurinhas, mas também pela sua disposição simétrica, em contraste com o arbitrário caos do resto. Estão dentro da pintura mas sem participar nela, digamos que, como nos teatros, em dois camarotes situados simetricamente nas pontas do palco, a assistir àquela bíblica representação, legando à posteridade toda a sua devoção cristã. No entanto, não deixam de ser ali tão minúsculos como todos os outros e de fazer parte daquele enorme rol de figurinhas, sendo mesmo difícil perceber a sua presença ali logo à primeira. Neste sentido, o banqueiro Tommaso Portinari e sua mulher Maria Baroncelli são tão pequenos como os pequenos, estando ali submetidos ao sobrenatural poder dos últimos momentos da vida de Cristo, perante o qual não passam de insignificantes miniaturas.
Olhando agora para os seus dois retratos, aliás, pintados na mesma altura, tudo se altera. Estão de novo em posição de oração mas sem mais nada à sua volta, ensimesmados na sua própria fé. Enquanto no primeiro quadro oram perante um mundo que os transcende e os reduz à sua pequenez, nestes dois retratos, onde surgem ampliados, começam e acabam neles próprios. Tão autónomos e auto-centrados que, ironicamente, estão hoje bem longe um do outro, um em Turim e o outro em Nova Iorque. Apesar da pose pia e contemplativa, o afastamento face ao primeiro quadro é enorme. Saem dos camarotes para serem eles agora a ocuparem o palco, e nós espectadores de tão pio espectáculo. Quer dizer, não para os ver, minúsculos, a contemplar as cenas da Paixão de Cristo, mas para os contemplar na sua própria paixão cristã.
Ora, muito  da história do cristianismo posterior à Paixão de Cristo do quadro de cima, passa por aqui. O cristianismo começou com S. João Baptista, foi protagonizado por Jesus e construído por um relações públicas chamado S. Paulo. A história cristã do Ocidente, porém, não fez mais do que inverter, ou perverter todo esse processo, ao sobrepor «as paixões e os interesses» dos seus principais protagonistas ao espírito primordial e original dos seus verdadeiros fundadores. A história do cristianismo não é a história de pequenos bonequinhos que assistem piamente às cenas da vida de Cristo, convertidos à sua palavra e à reprodução moral do Evangelho, da Boa Nova, mas uma história onde Cristo foi sendo lentamente apagado e adulterado, substituída por actores, sejam da nobreza, do clero ou da burguesia, cujos retratos em primeiro plano ajudariam a torná-los no verdadeiro centro institucional, dignos de veneração, temor, respeito e obediência, classes sociais que, em nome de Cristo, sempre estiveram mais centradas no seu próprio poder e ambição. 
Daí a história do cristianismo lembrar aquelas imagens de baixa definição que quanto mais se ampliam mais qualidade perdem.