04 outubro, 2014

O CORPO DA MÚSICA

Alécio de Andrade | Museu do Louvre, 1970

Estive a ouvir duas versões da Dança Espanhola, nº5 (Andaluza), de Enrico Granados. Uma tocada com violoncelo, outra, com piano. A minha questão é a relação que estabelecemos com uma música, não pela música em si, mas do instrumento com que é tocada.
Qualquer composição musical tem um valor formal. Quem sabe ler música olha para uma pauta e compreende-a mentalmente. A música, neste sentido, é cosa mentale, ainda que revestida de uma dimensão estética. Temos, portanto, uma pauta. Suponhamos que se trata de uma composição para um só instrumento. Ora, o que se passa na cabeça do compositor ao decidir se se trata de uma sonata para piano, violino, violoncelo ou clarinete? Trata-se, neste caso, de atribuir à música uma identidade física. A partir do momento em que os símbolos formais da pauta passam a estar consubstanciados nos sons de um instrumento, a música, tal como uma pessoa, adquire um corpo e a sua identidade fica completa, uma vez que a essência da música é auditiva e não puramente mental como a Matemática.
Imaginemos dez pessoas que apresentem conteúdos mentais, ideológicos e emocionais semelhantes. Pensam as mesmas coisas, acreditam nas mesmas coisas, têm os mesmos gostos, orientam-se pelos mesmos códigos, agem da mesma maneira. O que irá distinguir as suas identidades será a dimensão corpórea. Nem estou a pensar na identidade anatómica, mas nos rostos, vozes, expressões, gestos. E é precisamente isso, e outra coisa não poderia ser uma vez que mentalmente são iguais, que nos fará vê-las de modo diferente, gostando até mais de umas e menos de outras.
É por isso que eu acho que a Andaluza de Granados tocada com piano, não é a mesma Andaluza com violoncelo. Podem ser músicas gémeas mas são gémeas falsas, heterozigóticas, neste caso, heterocórdicas. Não podem ser iguais porque apesar de, formalmente, ouvir a mesma conjugação de sons, o impacto estético produzido pelos instrumentos é completamente diferente, e a música é fundamentalmente uma dimensão estética, no seu caso particular, o modo como o ouvido é afectado por uma estimulação sonora.
Será que tocar o Kind of Blue ou o Autumn Leaves com acordeão ou flauta, continua a ser o Kind of Blue ou o Automn Leaves? E continua a ser Jazz? O Povo que Lavas no Rio tocado por uma orquestra filarmónica continua a ser o mesmo fado? E será fado? Formalmente será. Mas na realidade não é. Porque embora esteja lá a melodia e o ritmo ou, no caso do jazz, o swing ou até o improviso, o corpo não é aquele. É um erro de casting, sei lá, assim como pensar em Woody Allen como Charles Foster Kane ou em Julia Andrews a substituir Bette Davis nos seus mais perniciosos papéis. Daí que, na verdade, e ao contrário do que comecei por dizer, não tenha estado a ouvir duas versões da Andaluza mas duas músicas diferentes.