29 outubro, 2014

O BAGAGEIRO DO MALI

Sebastião Salgado | Criança sendo pesada, Mali, 1985

Estive há dias a folhear um livro de Sebastião Salgado no qual apareciam algumas daquelas fotografias de crianças africanas subnutridas, incluindo esta, já tão vistas e revistas que se tornaram indiferentes. 
Saber os seus países não é relevante. Se acontece uma coisa na Europa, precisamos de saber onde foi. Na nossa consciência a representação do acontecimento é diferente consoante seja na Noruega, Holanda ou Espanha. Claro que um massacre é um massacre seja na Noruega, na Holanda ou em Espanha. Um assassino é um assassino, uma criança morta é uma criança morta. Isto, no plano da objectividade. Mas a nossa consciência não é objectiva. Saber que morreram 25 espanhóis não é o mesmo que saber que morreram 25 búlgaros, independentemente de gostarmos ou não de espanhóis ou de búlgaros. Mesmo que nos sejam indiferentes, um espanhol é um espanhol, um búlgaro é um búlgaro. 
Com África não acontece isso. Que diferença há entre um massacre no Uganda, no Quénia ou na Nigéria? O que distingue um ugandês de um queniano ou de um nigeriano? São africanos, são pretos. Quando vemos no telejornal crianças de olhar vazio, com a cara cheia de moscas e chupando os peitos ressequidos de esqueletos moribundos que por acaso são suas mães, ficamos sensibilizados. Mas nada que se compare com o cenário de uma amorosa e limpa criança de olhos azuis que aparece na secção de oncologia pediátrica de um hospital europeu.As guerras, as epidemias, os massacres e a fome que existem lá longe, nos infernos do planeta, matam multidões. Mas multidões que não passam de números, estatísticas, corpos sem identidade. Como aqueles que morrem no mar aos magotes, ao tentarem uma vida melhor na Europa, quem sabe, bagageiros num qualquer aeroporto.
Desta vez, ao contrário do habitual, no livro de Sebastião Salgado chamou-me a atenção o país onde foram fotografadas estas crianças subnutridas: o Mali. Fosse na Nigéria, no Quénia, no Burundi, no Uganda ou na Serra Leoa e ter-me-ia esquecido do país.
Há uns meses, numa daquelas festas em casa de um amigo do amigo do amigo, conheci um tipo do Mali. Pronto, dito assim, não tem nada de especial, mesmo sendo a primeira pessoa daquela região com quem privei. Acontece que foi uma das pessoas mais simpáticas, sãs e adoráveis que conheci em toda a minha vida. Mais velho do que eu mas com uma cabeça tão jovem e fresca que até chateia, estudou Filosofia e Sociologia em Paris mas quiseram as contingências da vida que seja agora um humilde bagageiro no aeroporto de Copenhaga. Eu, que gosto muito de Espinosa, descobri que ele gostava muito de Espinosa, vendo-me, de repente, de cerveja na mão, a falar em francês sobre Natura Naturans e Natura Naturata com um bagageiro oriundo do Mali. Como se isso não bastasse, foi incansável a resolver um desconfortável problema de saúde com um familiar meu, ficando-lhe eternamente grato por isso. Não ficámos com os respectivos contactos mas certamente que não irei esquecer o amabilíssimo ser humano que tive o prazer de conhecer nesse dia.
Nunca fui ao Mali nem conto lá ir. Porém, a partir de agora, qualquer referência a respeito do Mali será sempre associada àquele homem cuja simpatia, elegância e fantástico riso, nunca esquecerei. Aconteceu há dias com esta fotografia de Sebastião Salgado.