12 outubro, 2014

DESCULPAR

Gianni Berengo Gardin | Asciano-Siena, 1961

Gosto da palavra desculpar. Muito mais do que da palavra perdoar, solene e majestática mas menos funcional. E nestas coisas das culpas e desculpas o que importa é o que se faz ou deixa de ser feito e não o que se diz.
O seu prefixo é o que lhe dá alma (no sentido mesmo de a animar, dar-lhe vida, movimento) dando origem ao mesmo tipo de movimento que vemos em palavras como destapar, descobrir, desentupir, descansar, desmontar, desapertar, um movimento oposto ao do verbo principal por via da negação. O que vai determinar os verbos com este tipo de prefixação é o verbo desfazer. O que é destapar? É desfazer o que foi feito para tapar; desentupir é desfazer o que foi feito para entupir; descansar é desfazer o que foi feito para cansar. Desculpar é desfazer a culpa, fazer com que aquilo que foi feito deixe de ter sido feito, regressando-se a uma ordem anterior à desordem da culpa. Daí a ordem ser uma desordem da desordem, uma vez que desfaz a própria desordem que não devia ter ocorrido.
O acto de desculpar é um daqueles clássicos que, como diria Austin, permite pensar em how to do things with words. Quando pensamos no acto de fazer vêm-nos logo à cabeça coisas práticas e que envolvam o corpo, como escrever, aparafusar, pentear, lavar, dançar, comer, conduzir, beijar, regar, martelar ou cortar. Mas quando, no altar, o padre pergunta à noiva se aceita o homem como marido e esta se limita a dizer "sim", está a consumar efectivamente o acto de casar. Três letrinhas apenas mas que têm um efeito pragmático idêntico ao das acções físicas. Daí que coisas como prometer, jurar, ameaçar, aceitar, recusar, sejam um dizer que é um fazer. Desculpar é também um modo de fazer, neste caso, desfazer, fazer o contrário do que foi feito.
E que nos deve fazer sentir importantes. Eu adoro desculpar por isso. Sinto-me uma espécie de deus com o dom de fazer milagres, neste caso, desfazer acções, fazer com que uma coisa volte ao ponto anterior a ter sido feita, como fez Jesus quando voltou a dar vida a Lázaro. Ora, isto não é para qualquer um. O próprio deus, esse mesmo, o de Abraão, Jacob e Elias, é um casmurro que não é capaz ou não quer fazer esse milagre. Ou se calhar, e se assim for até o desculpo, não quer por não ser mesmo capaz, uma vez que um deus não pode ser aquilo que não pode ser, e quem dá o que pode a mais não é obrigado.
Uma das coisas que me tiram do sério é o facto de tantos anos depois da tonta infantilidade adâmica continuarmos todos a nascer culpados por via do pecado original. Ao contrário da justiça humana, segundo a qual somos todos inocentes até prova em contrário, de acordo com a justiça divina somos todos culpados até prova em contrário, prova essa bem complicada, uma vez que, como sentimos todos na pele, é mais difícil libertarmo-nos do pecado do que o Nani da bola. Em suma, e neste caso teológica, deus, que faz e desfaz enquanto o diabo esfrega um olho, no que toca a desfazer culpas tem muito a aprender com os seres humanos, os quais, na sua condição de pó da terra e que à terra há-de voltar, e que por causa disso, no esplendor da sua imperfeição, se fartam de fazer merda, nascem com o dom de desfazer culpas.
É por isso que eu não troco a palavra desculpar por perdoar. Sei lá o que significa perdoar! A sua etimologia não me diz nada de sugestivo sobre o seu significado. Se eu disser a uma pessoa "Perdoo-te" não faço ideia do que estou a dizer, sinto-me um bocadinho como no quarto chinês do Searle, em que se está para ali a dizer umas coisas cujo sentido não se percebe mas com a ilusão de que se percebe.
Se calhar é por isso que as pessoas muitas vezes dizem com aquele ar dramático de um folhetim radiofónico dos anos 60 "Ah, perdoo, mas não esqueço!". Ora bolas, perdoa mas não esquece? Mas que raio é isso? Perdoar e não esquecer são dois movimentos que se anulam, é como estar e não estar num sítio ao mesmo tempo. Não dá. Isso é perdoar só da boca para fora, não havendo verdadeira desculpa pois a culpa não chega a ser mesmo desfeita já que a memória não deixa. Daí esse maldito "não esquecer" ser um lembrar activo, intencional, sacana, um lembrar de quem quer mesmo não esquecer e se esforça para isso. O que soará sempre a ressentimento e um mau perder apesar de ser ele o juiz que absolve o réu.
Claro que desculpar não transforma repentinamente quem desculpa num doente de Alzheimer. Mas o lembrar de quem desculpa é apenas um lembrar passivo. É como um documento guardado no arquivo morto. Está lá, sabe-se que está lá mas já não é usado para nada. Já pertence mais às traças do tempo do que a nós. Eis pois a razão por que gosto de desculpar e, já agora, porque também gosto de ser desculpado. Podemos ser pó que ao pó há-de voltar. Mas mostramos àquele impotente lá de cima que ainda mandamos alguma coisa.