20 outubro, 2014

DA ALEGRIA DA GRAÇA SEM DOR

Lewis Carroll | Ellen Terry, 1864

Há uma piada muito engraçada em que se diz que uma pessoa paga ao psicanalista para se lembrar de coisas que pagaria para esquecer. O que já não teria grande graça era uma pessoa ganhar dinheiro para se esquecer de coisas que pagaria para delas se conseguir lembrar. No primeiro caso, trata-se de um simples manual de sobrevivência. Mas, no segundo, seria apagar o que dá sentido à existência, pois o que dá sentido à existência é o que achamos que deve dar sentido à existência e o que devemos achar que dá sentido à existência é aquilo que gostamos de conseguir não esquecer, não aquilo que não conseguimos esquecer embora gostássemos de o conseguir. Aprender a morrer é aprender a conservar o que se pagaria para não esquecer mesmo depois de morrer. Felizmente, e ao contrário do psicanalista a quem se paga para lembrar o que se pagaria para esquecer, é de graça. E mais vale esta graça do que uma piada engraçada.