18 outubro, 2014

A LUZ DE DELFT


Este Vista de Delft foi durante muito tempo, para mim, estupidamente, diga-se, um Vermeer de segunda categoria. Não por o achar mau ou desinteressante, longe disso, mas porque Vermeer, como, aliás, a holandesa pintura de género, são os interiores.
Mas é preciso também perceber que os interiores de Vermeer não existem sem a luz que os ilumina, seja mais brilhante ou coada, directa ou indirecta. As figuras humanas de Vermeer, seja a mulher que toca um instrumento, a mulher que lê uma carta ou a mulher que despeja o leite, são banhadas por uma luz lateral que entra nas casas como um sopro divino que desoculta uma essência sagrada num interior de quotidiana banalidade. Tornado possível graças ao modo como o vidro, previamente fabricado e utilizado em Veneza, passou a ser cortado, polido e amplamente utilizado nas janelas holandesas, dando aos seus interiores uma inaudita luminosidade.
Eu posso então passar a entender esta vista de Delft como a revelação dos bastidores desses quadros, a oficina secreta onde a luz é naturalmente fabricada para ser depois projectada através de uma janela enquanto holofote que dá uma visibilidade cénica ao que se oculta no seu interior. O que não deixa de ser algo paradoxal. Estamos habituados a pensar os bastidores como espaço interior e privado em oposição à exterioridade do palco enquanto zona pública. Porém, na pintura de Vermeer, ou na pintura holandesa em geral, o palco são os interiores, sendo o seu conteúdo tornado possível graças a um efeito que só vemos indirectamente através de uma janela para lá da qual nada se sabe. É esse o mundo de Vermeer. Um mundo cujo centro é alimentado por uma luz transcendente, emergindo de um mundo oculto, e que apenas se pressente ao colidir com a suave materialidade dos corpos humanos, dos objectos, da vida material de um casa holandesa do século XVII.
Mas entretanto chego a esta vista de Delft e fico baralhado. Por um lado, percebo, finalmente, de onde vem a luz e passo a ver por fora as casas em cujos interiores via apenas a luz a entrar. Neste sentido, adquiro um olhar realista do mundo. Deixo o palco para regressar ao mundo exterior do qual perdemos completamente a consciência enquanto olhamos as cenas teatralmente representadas nesse palco. Lembra-me aqueles momentos em que vamos ao cinema durante o dia, ficando duas horas metidos numa realidade virtual e, de repente, saímos para o exterior e lembramo-nos que estamos numa cidade feita de carne e osso. Mas, por outro, ao ver o exterior das casas de Vermeer e a luz no seu verdadeiro elemento, pareço entrar numa certa irrealidade. Porquê? Porque Vermeer é mesmo aqueles interiores, aquelas figuras humanas, aqueles instrumentos, aqueles objectos domésticos. E aquela luz que, entrando, pela casa, deixou de ser a luz de Delft, uma luz pública ou natural, para passar a ser a luz de Vermeer, uma luz privada, doméstica, a luz da pintura holandesa.
A realidade de Vermeer não é a realidade de Delft. É a realidade de Delft na pintura de Vermeer. Neste caso, porém, tudo se inverteu. Quer dizer, passámos a ver o mar de luz que banha a cidade antes das pequenas ondas de luz que banham silenciosamente os seus interiores. Uma luz e cidade que apesar do seu máximo realismo, depois de passarmos tanto tempo no cénico interior das casas holandesas, se transfiguraram numa bela e estranha irrealidade.