03 setembro, 2014

TOLSTOI REVISITADO

Bert Stern | Série ' The Last Sitting', 1962

Tolstoi abre o Anna Karenina com a luminosa ideia de que as famílias felizes são todas iguais enquanto cada família infeliz, é infeliz à sua maneira. Creio que podemos ainda ver a coisa de outra maneira: é mais fácil quantificar a infelicidade do que a felicidade. Uma pessoa feliz é sempre uma pessoa feliz. Quem é feliz não pensa que podia sê-lo ainda mais. É-se feliz e pronto. Mas a infelicidade não tem limites, é sempre possível ir ainda mais longe na infelicidade, ser mais infeliz do que já se era apesar de anteriormente se pensar que já se tinha chegado ao limite. A felicidade é um lago ameno onde tudo está em paz e harmonia para um sereno passeio de barco. A infelicidade é um vulcão que nunca pára de deitar lava para nos queimar e queimar duas pernas é pior do que queimar uma perna, queimar dois braços e duas pernas é pior do que queimar apenas duas pernas e assim sucessivamente.
Mas há vulcões e vulcões. Viver no sopé do Vesúvio, que é onde vive toda a humanidade, é sempre um risco. Viver é uma actividade intrinsecamente perigosa. Mas quando o vulcão acorda tanto podemos fugir a tempo como sermos apanhados pela lava ardente. Pior, muito pior, são os vulcões que vivem adormecidos dentro de nós. Quando esses acordam ninguém conseguirá escapar.