06 setembro, 2014

PAREDE LISA SEM MONA


A fim de pagar as suas dívidas, consta que o estado francês pondera vender a Mona Lisa, avaliada em quase 2 mil milhões de euros. Há quem franza o sobrolho, não por razões patrióticas ou artísticas, mas igualmente financeiras. O Louvre é o museu mais visitado do mundo, cerca de 9 milhões de pessoas por ano, sendo a Mona Lisa grande responsável por esse número que paga uma pipa de massa para lá entrar, fora o que depois consome na loja do museu com os recuerdos. Ou seja, uma mina. Podemos, todavia, acalmar esses pessimistas, enfrentando o problema sob um novo prisma, aprendendo com a História, essa velha e sábia conselheira.
No dia 21 de Agosto de 1911 a Mona Lisa foi roubada do Louvre. Rezam as crónicas que os parisienses acorreram em grande número, formando-se mesmo grandes filas à entrada, para ver a parede sem a Mona Lisa. Tal como hoje se formam grandes filas para ver a Mona Lisa, na altura formaram-se filas para não ver a Mona Lisa. Até Franz Kafka, chegado a Paris, três semanas depois do roubo, esperou horas na fila com o seu amigo Max Brod para ver um pedaço de parede vazia onde era suposto estar a Mona Lisa, situação que, sendo vivida pelo próprio Kafka, deixa de ser kafkiana para passar a ser apenas uma parvoíce acessível ao comum dos mortais, nada a ver, portanto, com pessoas que se transformam em insectos gigantes, situação que não está ao alcance de qualquer um.
Ora, nós sabemos que as hordas bárbaras que vomitam diariamente o seu olhar sobre a Mona Lisa, não vão ver a Mona Lisa mas a ideia de estar ver a Mona Lisa. A habitual reacção dos bárbaros que vão ver a Mona Lisa é descobrir, com enorme perplexidade intelectual, que a Mona Lisa não tem nada para ver. Vão ver o que já tinham visto e não percebem o que há de especial para ver por estarem ali a ver, ao vivo. Mesmo assim não se arrependem. Porquê? Porque viram. Viram que não havia nada para ver mas o que importa é ver, mesmo que não tivesse nada para ver. Se perguntarmos a uma dessas pessoas qual o motivo da especial atenção dada à Mona Lisa em vez de uma outra obra das muitas daquele enorme museu, não sabe responder. Mas isso não importa pois o que importa é ver a Mona Lisa, esse Manneken Pis de Paris.
O critério que leva as pessoas a ver X não são as condições objectivas ou subjectivas de X. X pode ser uma inutilidade, uma coisa sem gracinha nenhuma; ou podemos nunca ter sido tocados intimamente por X. Mas vamos ver X porque toda a gente vai ver X, e se toda a gente vai ver X é porque vale a pena ver X, ainda que ninguém de toda essa gente saiba porquê.
Ora, é neste sentido que o estado francês pode reabilitar o espírito de 1911. A França vende o quadro a um banco japonês ou a um magnata do Texas e arrecada o dinheiro. Mas pode continuar a fazer da Mona Lisa uma galinha dos ovos de oiro: não pela sua presença, mas pela sua ausência. Se quem vai ver a Mona Lisa não percebe por que vai ver a Mona Lisa, também não tem de perceber por que vai ver o não ver a Mona Lisa. Se toda a gente começar a ir, o que importa é ir também, fotografando-se a parede lisa com o mesmo espírito com que antes se fotografava a Mona Lisa, ou fazendo selfies com a parede lisa, saindo de lá, como agora, com aquele enigmático sorriso de quem vem com a consciência do dever cumprido.