17 setembro, 2014

OS EX-COMUNISTAS

Robert Doisneau | Les Frères, Paris, 1934

Parece que, tecnicamente, um ex-alcoólico será toda a vida um alcoólico, mesmo sem voltar a cheirar uma gota de álcool. É mais ou menos isso que se passa com os ex-comunistas, sobretudo os oriundos da esquerda hardcore, apesar de felizes excepções como Pacheco Pereira, um livre pensador que fala sem sentir que deve alguma coisa a alguém por causa do que foi ou do que é.
Tal como para um ex-alcoólico, o passado é visto pelo ex-comunista como uma mácula, uma mancha ideológica que vai marcá-lo negativamente toda a vida. Daí não lhe bastar apenas não ser comunista mas ter uma necessidade obsessiva de já não o ser e mostrar que já não o é. Dá mesmo a ideia de que acordam todas as manhãs e a primeira coisa em que pensam é o que irão dizer ou escrever para poder mostrar ao mundo que não são comunistas, ou simplesmente de esquerda, ainda que de uma esquerda softcore, e ficando muito contentes por terem conseguido mostrá-lo.
Neste sentido, um ex-comunista mais do que alguém que se define por ser, é alguém que se define por já não ser. Se as pessoas o conheceram tendo sido comunista numa juventude adâmica, devem agora conhecê-lo por já não o ser e serem obrigadas a lembrarem-se disso 7 dias por semana, 30 dias por mês, 365 dias do ano. Neste caso, ao contrário da ideia de «revolução permanente» de outrora, estamos perante a ideia obsessiva de uma «redenção permanente", depois de baptizados e renascidos nas águas puras e imaculadas do mais sagrado liberalismo. É o contrário de Deus que, no Êxodo, se revela como «Eu Sou aquele que Sou». O ex-comunista, por sua vez, pisa os palcos do mundo, de megafone na boca ou na caneta, gritando «Eu sou aquele que já não sou»  Por isso, são assim um bocadinho como o obstinado São Paulo depois da estrada de Damasco, que passou de acérrimo perseguidor de cristãos a fervoroso divulgador da cristandade.
A filósofa Hannah Arendt escreveu, em 1953, um artigo precisamente intitulado «Os Ex-Comunistas». Nesse texto, que pode ser lido aqui, ela faz uma muito interessante distinção entre ser ex-comunista e antigo comunista. Pronto, não é aqui a ocasião para a aprofundar mas também não quero deixar de referir o assunto. Rapidamente: por exemplo, Picasso foi um antigo comunista. Porquê? Antes de mais porque foi efectivamente comunista, tendo depois deixado de o ser. Mas não foi verdadeiramente um comunista, apenas um pintor atraído pelo comunismo. Ter sido comunista não foi determinante na vida de Picasso, ao contrário do que se passou com a sua carreira enquanto pintor. Já os ex-comunistas, por sua vez, «devem o  destaque que conseguiram exclusivamente ao seu passado. O comunismo continuou a ser o aspecto principal das suas vidas». Ora, é neste sentido que um ex-comunista é um «comunista de pernas para o ar», alguém que só se pode compreender na oposição férrea ao seu passado.
Juro que nada tenho contra a ideia de ser anti-comunista, e a prova mais cabal disso é o facto de eu também ser anti-comunista. Aliás, confesso mesmo não perceber como pode alguém ser comunista, se tiver bem consciente a enorme tragédia que o comunismo representou para muitos milhões de inocentes que morreram em seu nome. Mas uma coisa é ser anti-comunista porque se considera o comunismo errado, outra é transformar a sua rejeição relativamente a tudo o que não seja o seu oposto, numa fobia com contornos verdadeiramente patológicos. Só é válido, seguro e com pernas para andar, tudo o que esteja nos antípodas do comunismo, nomeadamente a desvalorização social e moral do Estado, o ódio a um nivelamento social ainda que não planificado ou a ideia de que o mercado é sagrado ou que o natural e bondoso empreendedorismo das elites basta para construir uma sociedade mais justa e onde todos possam viver melhor.
O problema dos ex-comunistas é acabarem por passar toda a sua vida de pernas para o ar, embora por razões opostas. Talvez seja caso para dizer que viveram toda a vida a ver o mundo ao contrário e, neste sentido, estiveram sempre no lado errado da vida, embora com o velho fulgor, dedicação e militância de sempre. Um verdadeiro ex-comunista será sempre um ser de excepção. Está-lhe na massa cinzenta.