25 setembro, 2014

OS ARISTOTOLOS

Hans Sebald Beham | O Bobo e a Boba

Eu tinha uma teoria a respeito das praxes académicas. Pensava nelas como consequência do facto de Portugal ser ainda um país atrasado e entrar numa universidade um ritual de passagem como naquelas tribos selvagens nas quais os jovens têm de sofrer certas provações para integrarem o mundo dos adultos. Neste caso, é aquela ideia provinciana de que estar numa universidade é assim uma coisa muito importante e que, por isso, para além das queimas, cortejos, bênçãos de pastas e sei lá mais o quê, já que se vai ser doutor ou engenheiro, devemos passar por um conjunto de sórdidas provações. 
Todavia, descobri outra pista para tão acéfalo e desequilibrado fenómeno. Estive a ler sobre a fuga de cérebros portugueses para o estrangeiro, de jovens intelectualmente brilhantes, cientificamente bem preparados, com fome de conhecimento e cheios de vontade de trabalhar, mas não em Portugal porque o país não lhes dá trabalho.
Ora, pode ser uma aguda consciência disto que leva muitos jovens a aderirem ao suíno esplendor das praxes académicas. Sabem que Portugal é um país demasiado pequeno para muitos cérebros. Sabem que, em Portugal, a estupidez vende e pode ser mesmo o passaporte para uma carreira de sucesso. Em suma: Portugal não precisa de aristocratas, aristocratas no seu mais puro sentido etimológico, ou seja, dos melhores. Basta-lhe formar aristotolos. Ideia reforçada com o facto de o próprio próprio-ministro da praxada pátria ser igualmente um aristotolo, aliás, na sequência do seu antecessor, sobretudo quando se punha a tentar falar inglês, a vender Magalhães e toda a restante banha da cobra, com aquele ar de quem mistura o científico e o sincrético tão característico do senhor Oliveira da Figueira.
As praxes académicas são o grau zero da inteligência e o grau máximo da mais tenebrosa imbecilidade e mais puro obscurantismo intelectual. Muitos dos estudantes que promovem o bárbaro culto das praxes, têm a clara consciência de ter chegado à universidade sem saberem ler nem escrever, absolutamente ignorantes, com uma inteligência abaixo da média e a roçar perigosamente o nível do orangotango. Mas aí é que está! Os farrapos de inteligência que ainda lhes restam, bastam para perceberem que, se chegaram assim à universidade para virem depois a ser doutores e engenheiros, é porque a estupidez pode não ser uma degeneração da natureza humana mas apenas um estado de espírito, uma questão de atitude ou, quem sabe, depois de olharmos à nossa volta, um desígnio nacional. Sabe Deus se não temos ali futuros ministros, secretários de estado, directores-gerais, presidentes de câmara, clubes de futebol ou de outra coisa qualquer, quiçá, o fundador de uma religião. Começa-se sempre por algum lado.