07 setembro, 2014

O PRETO E O BRANCO TAMBÉM SÃO CORES

Hans Gutmann | Marina Ginestà no telhado do Hotel Colón, Barcelona, 1937

Quando se diz que a pessoa X tem uma visão colorida da vida, ou que a pessoa Y está a ver o seu futuro a cores, significa isso uma visão erradamente optimista, ingenuamente desfasada da realidade, um corte entre a realidade em si mesma e o modo como tais pessoas olham para ela. 
Ora, as cores não são ideias platónicas apenas acessíveis através de um esforço intelectual, de preferência, contra os sentidos. Ver a realidade é ver a realidade a cores. Se queremos ver cores devemos abrir os olhos, olhar para as árvores, para o céu, para os animais, os objectos, enfim, tudo o que consideramos fazer parte da realidade e não da imaginação. Sendo assim, ter uma visão colorida da vida não é mais do que ter uma visão realista da vida, ver a vida como ela é.
Pelo contrário, ver a realidade a preto e branco é que nos faz ter uma relação mais distante e imaginária com ela. Isso faz com que documentários antigos que vemos a preto e branco fiquem ainda mais afastados da nossa realidade do que efectivamente estão. Quando pensamos na guerra na ex-Jugoslávia, na guerra do Vietname, na Guerra Civil de Espanha, na II Guerra Mundial ou na I Guerra Mundial, a nossa percepção não é apenas temporalmente condicionada mas também ontologicamente. Não se trata de ter apenas a consciência de que umas estão mais próximas e outras mais distantes no tempo, não é apenas uma questão de antes e depois. Olhamos para elas como fazendo parte de diferentes ordens de realidade, como se tivessem decorrido em mundos diferentes. Porque uma coisa é vê-las a cores, como é o caso das duas primeiras, outra será vê-las a preto e branco, como nas três últimas.
Daí a sensação de inquietante estranheza perante um documentário como este. Porque, ao contrário da popular expressão relativamente à coloração da realidade, aqui, colorir factos, situações, pessoas, resgata-as para a nossa realidade, expurgando-as da sua aparente identidade ficcional e distante. Por isso, ver esta fotografia de Marina Ginestà a preto e branco, apesar do seu ar moderno, mantém-na longe de nós, ao contrário do referido documentário.
Uma importante lição pode ser tirada desta metamorfose cromática. Lembrar que o preto e branco também são cores só que disfarçadas. E que, quando menos se espera, podem cair as máscaras e surgirem todas as cores no seu máximo esplendor. Só que, ao contrário da expressão popular, não necessariamente para embelezar a realidade.