02 setembro, 2014

O ANJO DA HISTÓRIA

Katia Chausheva

Eu era ainda muito jovenzinho mas lembro-me bem da importância mediática de Willy Brandt, Golda Meir, Príncipe Sihanuk, Ali Bhutto, Ailé Selassié, Reza Pahlevi ou do Arcebispo Macários. Naquele tempo, ao contrário da actual pulverização informativa e comunicacional, o mundo concentrava-se todo num canal de televisão. Conhecia Willy Brandt ou Golda Meir porque eram duas das mais pessoas importantes daquele tempo em que o mundo se reduzia ao que era apenas importante.
Daí eu ter percebido a importância, quando foi publicado em Portugal, da Entrevista com a História, da jornalista Oriana Fallacci, onde surgem todos aquelas figuras. Esse livro existia lá em casa e lembro-me do meu entusiasmo por poder conhecer mais intimamente personalidades que eram os senhores do mundo, os que abriam telejornais e faziam as capas dos jornais.
Voltei a pegar no livro há dias e fui invadido por uma sensação de estranheza que me arrastou para a melancolia. Tal aconteceu ao perceber os espectros em que se transformaram todas aquelas figuras outrora de betão armado. A entrevistadora pergunta a Willy Brandt se nunca chora. Ao arcebispo Macários se os acontecimentos em Chipre poderão ter ocorrido com o acordo tácito dos americanos, quer dizer, de Kissinger. A Kissinger pergunta se é contra o casamento. A Golda Meir, se está disposta a falar com Arafat. A Arafat, o que pensa de Moshe Dayan (a sua pala no olho deve ter contribuído para que seja um das primeiras figuras políticas de que tenho memória, ainda com o bibe da escola primária). Ao vietnamita Van Thieu, se acredita que um cessar-fogo levará a um banho de sangue.
Leio as respostas e facilmente vejo pessoas que se transformaram em meros nomes sem peso e forma. É estranho lê-las pela ambígua identidade daquelas figuras. São ainda as nossas figuras, crescemos com elas, fazem parte do nosso mundo, como avós nossos que entretanto morreram mas, ao mesmo tempo, foram completamente expulsos do torrencial leito da História. Eram tudo e, quase de repente, ficaram nada. Que importância tem o que pensam, o que sentam, o que desejam? As suas estratégias, conspirações, traições, cedências?
Alexandre Dumas ficou conhecido por transformar figuras secundárias em verdadeiros heróis. Por exemplo, os famosos mosqueteiros existiram mesmo. Mas existir é uma coisa ser uma lenda, uma outra.  E foi isso que mesmo fez Dumas: imaginar, efabular, romancear enchendo páginas e páginas com episódios que, na vida real, não tiveram qualquer relevância histórica.
Quando o implacável anjo da História sobrevoa o mundo, faz o contrário de Dumas. Enquanto este transforma fantasmas em heróis, aquele transforma heróis em fantasmas, reduzindo a pó e ruínas o que anteriormente foram mundos. E sempre que bate as asas, ainda que através de um movimento lento e imperceptível, mais o pó se espalha, cada vez mais pulverizado num vazio ao qual parece ter sempre pertencido.