18 setembro, 2014

INTRODUÇÃO À FILOSOFIA

André Kertész | Marionetas de Pilsner, 1929

Aconteceu-me ontem uma coisa engraçada depois de ter dado a minha primeira aula a meninos acabados de chegar à Filosofia. Como sempre, dedicada à Alegoria da Caverna, de Platão.
Horas depois, em casa, ao escrever aqui num post a palavra "filósofa" o sempre prestável e vigilante corrector ortográfico deu-me erro. Se escrevesse "filósofo", não haveria problema, pois ele sabe que há pessoas que são filósofos. Não sabe, porém, que há também pessoas que são filósofas, isto é, mulheres que por fazerem filosofia não são engenheiras, cabeleireiras ou advogadas mas filósofas.
É uma luta inglória entre mim e o computador, marcada por um contraste brutal entre o meu saber e o dele. Ao contrário dele, eu sei, mas saber mesmo, que existem filósofas, saber assentado em dois argumentos: um empírico e outro racional. Empírico, porque a experiência mostra-me que existem mesmo filósofas. Por exemplo, uma americana chamada Martha Nussbaum que não é gerente de um supermercado de Chicago mas filósofa (o imbecil do corrector continua a dar-me erro) especializada em Aristóteles. Sei também que existiu uma filósofa (estúpido!) chamada Hannah Arendt que, por ter escrito livros de Filosofia, foi filósofa (grrrrr) e não gestora numa empresa tabaqueira. Mas mesmo sem conhecimento da existência de filósofas (pronto, vou ter mesmo de aprender a viver com isto), teria condições para chegar racionalmente à ideia de filósofa. Um filósofo não o é por ser homem no sentido sexual do conceito, uma vez que não é a testosterona que faz um filósofo mas o facto de ser um ser humano, e ser humano que se dedicou à Filosofia em vez de à indústria conserveira. O João Malheiro tem aquela voz e não é isso que faz dele um filósofo. Ora, se  não é a parte hormonal que leva um homem a ser filósofo também não será essa dimensão a impedir uma mulher de o ser. Uma mulher, apresentando o mesmo grau de humanidade de um homem, beneficia das mesmas condições para aceder à Filosofia, sendo esta igualdade análoga à que ambos apresentam para conduzir automóveis, cozinhar ou ver telenovelas.
Agora, o que sabe o computador, nomeadamente a parte dele que corrige o que eu escrevo? Apesar da sua arrogância inquisitória sobre o que eu escrevo, apesar da sua infinita informação sobre tudo e mais alguma coisa, ele nada sabe. Não podemos dizer que ele sabe que não há filósofas pois não se pode saber o que não é verdade. Mas mesmo o que é verdade, um computador não pode saber, pois saber implica estar consciente do que se sabe e consciência é coisa que ele não tem.
Mas vamos imaginar um computador super-ultra-mega-hiper-sofisticado que tenha consciência. Será que posso pensar que por ele me aceitar a palavra «filósofo», sabe que existem filósofos? Como é que ele sabe o que é suposto saber? Será que o valor positivo de ele saber que existem filósofos é inversamente proporcional ao valor negativo de não saber que existem filósofas (raios partam a correcção, já não a posso ver à frente)? Não, pois também não sabe que existem filósofos. Ele sabe, como diria Espinosa, por «ouvir-dizer», porque foi programado para isso, foi obrigado a saber isso mas sem ter sido tido nem achado. Daí que tudo o que ele «sabe» valha tanto como o que ele não sabe: nada. Daí que o seu «saber» tenha o mesmo grau de consistência daquilo que ele ignora: nenhum. A sua relação com o verdadeiro e o falso acaba por ser assim aleatória e não fundamentada.Teve sorte em ter sido programado para saber que existem filósofos mas azar ao não tê-lo sido para saber que existem filósofas.
Daí ser engraçado ter acontecido isto logo ontem. É pela consciência disto que deve começar a Filosofia. E a caverna de Platão é a mais perfeita porta de entrada para estes dois anos de luta contra as aparências com as quais convivemos em bovino estado de graça e sem uma ponta de inquietação.