27 setembro, 2014

IFIGÉNIA

Masao Yamamoto | #1400, da Série Nakazora, 2006

Claro que o Quixote é uma figura universal. Glosando Sócrates, diremos que não é espanhol nem manchego mas um cidadão do mundo. Mas também não podemos deixar de pensar nele como espanhol e manchego em vez de escandinavo, japonês ou persa.
Também  nós tivemos por cá o nosso Quixote, derramando a sua atávica insânia: Calisto Elói de Silos e Benevides de Barbuda, sendo Camilo o seu Cervantes. Mas, tal como Quixote, de cuja secura cerebral emanam frémitos moralizadores sobre os desvarios do mundo, também o nosso morgado mirandês toca com estridente ímpeto nas chagas que assolam a babilónica capital para as poder redimir com a ajuda dos seus egrégios clássicos que, mais do que humedecer, ainda lhe secam mais as já ressequidas circunvoluções.
Camilo, logo no início do romance, dá uma mãozinha à sua personagem, derramando o seu veneno legitimista sobre os representantes da nação em Lisboa:

«Os deputados eleitos até àquele ano, no círculo de Calisto Elói [...] tinham sido uns rapazes bem falantes, areopagitas do Café Marrare, gente conhecida pela figura desde o botequim até S. Carlos, e afeita a beber na Castália, quando, para encher a veia, não preferia antes beber da garrafeira do Mata, ou outro que tal ecónomo dos apolíneos dons. Em geral, aquela mocidade esperançosa, eleita por Miranda e outros sertões lusitanos, não sabia topograficamente em que parte demoravam os povos seus comitentes, nem entendia que os aborígenes das serranias tivessem mais necessidades que fazerem-se representar, obrigados pelo regime da Constituição» [cap. III]

Mas chega finalmente Calisto Elói. O anjo redentor, vindo da mais profunda e vernácula província da moral e dos bons costumes, para denunciar os vícios e pecados dessa Babilónia perdida que se espreguiça e se diverte à custa dos seus inocentes representados. A chegada de Calisto ao Parlamento, com o seu verbo dardejante, assume uma redenção quase apocalíptica. Porém, tudo muda enquanto o diabo esfrega um olho. Calisto Elói descobre a sua Dulcineia, neste caso uma bela e jovem viúva, e apaixona-se. Apaixona-se, inflama-se enfeitiça-se, desentranha os mais obscuros instintos que vão atolar a messiânica alma do morgado na pantanosa languidez de um coração amanteigado.
Um dia, a jovem e bela viúva, Ifigénia é o seu nome, carecendo de um favor do deputado da triste figura, dirige-se a casa deste, onde ocorre o seguinte diálogo:

«- A que devo eu a honra desta visita, minha senhora?
-Abreviarei a minha história e a minha pretensão. As suas horas deve-as V. Exª ao bem da Pátria, e indiscreta fui eu obrigando-o a estar fora do Parlamento a esta hora...
-Minha senhora...que vale a Pátria, em comparação da honra que V. Exª me dá?!» (cap. XXIV)

Muitos, mas mesmo muitos anos depois deste diálogo, continuamos a encontrar uma classe política assombrada pelas suas Ifigénias que se escondem por detrás dos mais elevados arroubos patrióticos. Não a bela Ifigénia de Calisto Elói propriamente dita, mas os interesses inconfessáveis de cada um: interesses económicos concretizados com promiscuidades várias, interesse em servir o próprio partido, sejam as suas libido dominandi associadas a um desejo de glória, honra e vaidades, que embaciam a pátria e a plebe que a povoa, apesar dos sorrisos rasgados, apertos de mão e osculações mil, sempre que o representante, em vez de subir, desce às serranias dos representados, em nome dos quais assume o seu espírito de missionário.
Calisto Elói, embora sem disso ter consciência, foi um Quixote, mas acabou no seu contrário. Já os nossos políticos nunca serão capazes de ser o contrário de si próprios.