05 setembro, 2014

GERARD DAVID | CRISTO PREGADO NA CRUZ, 1481


Estranha, esta pintura, sobretudo pela sua, nada habitual, frivolidade perante aquele que será um drama fundador da cultura ocidental, o drama dos dramas, a mancha redentora da humanidade.
Na história da pintura, estamos habituados a ver este momento envolvido numa grande capa de emotividade. Seja, por um lado, dor, sofrimento, angústia, desespero, nas poses e rostos dos que são próximos da vítima sacrificada e sofrem pelo seu destino sem nada poderem fazer perante o absoluto drama que se alastra diante dos seus olhos, seja, por outro, os risos, o escárnio, a alegria sádica de quem se compraz com o destino de quem ousou apresentar-se ao mundo como filho de Deus.
Aqui, porém, tudo isso está ausente. Ninguém está presente, nem os que choram nem os que riem. Vêem-se apenas uns curiosos que mais fazem lembrar aquelas pessoas que, nos jogos de futebol dos distritais, vão para cima de um muro para tentar ver o jogo sem pagar. Vêem o jogo mas distantes dele. Depois, os homens que tratam da crucificação estão ali na condição de eficazes operários que se limitam a cumprir a sua tarefa. Estão ali a pregar um homem na cruz como poderiam estar na oficina a fazer cadeiras ou mesas. À direita, dois homens que mais parecem engenheiros ou arquitectos a acompanhar uma obra com um olhar tecnicamente compenetrado. E Cristo? Ei-lo com uma expressão introspectiva, mais concentrado no sentido do que lhe está a acontecer do que propriamente no impacto físico do que lhe está a acontecer. Toda esta neutralidade contribui para reforçar ainda mais o drama da cruz. Cristo não vai apenas morrer de um modo infame. Vai morrer só, perdido no meio de uma perfunctória indiferença, longe de gemidos ou de risos.
Mas há, ali, no Gólgota, um claro sinal de emoção, de interesse, de entusiasmo: o cão. Desiste do crucificado, não quer saber dele, mas veja-se a atenção que ele dá à caveira. Não há movimento mas aposto em como o cão abana o rabo e que fareja a caveira com dedicação. Atrás de si há um homem que vai morrer, o centro da acção, mas o animal não quer saber disso, centrando-se vividamente na imagem da morte espojada à sua frente.
Este cão é grande parte dos cristãos. Um espelho do cinismo cristão perante  a missão evangélica do seu fundador, entre Belém e o Gólgota. O cinismo do cão não é o cinismo dos cínicos, quer dizer, dos cães. Cínico, que significa cão em grego, era o que chamavam a um conjunto de filósofos pós-socráticos que desprezavam as convenções sociais e que, por isso, pareciam mais viver com a liberdade e indiferença dos cães do que como seres humanos sujeitos a certas normas. Mas a palavra evoluiu e quando hoje pensamos em cinismo ou cínico já nada tem que ver com o seu passado etimológico.
O nosso cinismo perante a vida e a morte de Cristo resulta de uma dupla e ambígua relação. Somos cristãos, é o nosso bairro na aldeia global, a nossa identidade, toda a nossa história foi construída inspirada no evangelho. Mas, no fundo, a nossa religiosidade está mais centrada na relação que temos com a nossa morte e dos que amamos do que propriamente na conversão moral e antropológica que era suposto ser a sua finalidade. É por isso que somos aquele cão. Cristo, o redentor, que veio ao mundo para nos converter e salvar, está ali a morrer e o cão apenas olha para a morte, a sua preocupação é a morte, o seu interesse é a morte. No nosso caso, o medo da morte, a angústia perante a morte, essa noite escura que nos assusta desde crianças. O cão está lá, assiste à cena, está dentro mas, ao mesmo tempo está fora. Assim é, igualmente, a esmagadora maioria dos cristãos que, tendo consciência de Cristo, da morte de Cristo, é na sua própria morte, no seu destino, no seu fim, que estão concentrados, dispensando, tal, como o mais cínico de todos os cínicos, o Grande Inquisidor, dos Irmãos Karamazov, o verdadeiro significado da vida e da morte de Cristo.