21 setembro, 2014

ENTRE O SOL E O MAR

Pieter Bruegel, O Velho | Paisagem com a Queda de Ícaro, 1560

Na última aparição pública antes da sua morte, ao receber o prémio D.W. Griffith, Stanley Kubrick lembrou o facto de, na última fase da sua carreira, Griffith ter sido posto de lado por ambicionar projectos comercialmente inviáveis. Kubrick estabelece então uma analogia com o triste destino de Ícaro. Neste caso, porém, substituindo a habitual lição moral, o tradicional "Não voes demasiado perto do Sol", por um "Constrói umas asas melhores".
A resposta de Bruegel à queda de Ícaro é óbvia: a tradicional. Enquanto Ícaro esperneia desesperadamente com a cabeça debaixo de água, vemos, em terra sólida e firme, um lavrador e um pastor, num cenário de absoluta serenidade, dedicados às suas humildes tarefas quotidianas. Há, é verdade, qualquer coisa de falacioso neste quadro, uma falsa dicotomia: o mundo não tem de estar dividido os que querem chegar ao Sol (ou ao céu, como em Babel) e os que vivem apenas para as pequenas tarefas quotidianas. E também é verdade que a frase de Kubrick não pode deixar de ser desafiante. É graças à ambição de alguns que o mundo pula e avança.
Ainda assim, não podemos deixar de pensar no aviso de Bruegel. Pensar se será mesmo importante chegar perto do Sol. Ou no que ganhamos por lá chegar. Mas também no que perdemos por lá chegar. Podemos mesmo pensar, com Kubrick, se não será possível arranjar umas asas melhores e conseguirmos voar até lá. Mas o que custa construir essas asas? E que tempo se perde para as construir? E que coisas vamos deixar de fazer enquanto estamos a construir as asas que nos levam até ao Sol?
São perguntas que podemos fazer tanto para pensar tanto nas nossas vidas pessoais como num plano social e político. Perguntas sobre que tipo de vida queremos, o que nos pode fazer felizes, mas também sobre que tipo de sociedade queremos, que tipo de bens, materiais ou simbólicos, deve produzir uma sociedade para ajudar os seus membros a serem mais felizes, ou, atendendo aos perigos evidentes desta generosa meta, para ajudar os seus membros a serem menos infelizes.
Sim, são muitas perguntas de uma só vez. Mas a minha ideia não é agora responder-lhes. É apenas lembrar o quadro.