10 setembro, 2014

ASCETISMO LABORAL

Philip Gröning | O Grande Silêncio, 2005 [Fotograma] 

Fico sempre angustiado quando vejo pessoas a regressar ao trabalho com ar festivo. Como se as férias fossem um pesadelo recente que urge ser esquecido e ultrapassado, sendo o espírito aquele das seitas religiosas onde se canta, ri, chora e se dão as mãos, só que em vez de agradecer uma dávida do Céu, agradecem-se as tarefas da Terra. Lembra-me um pouco aquilo a que o escritor Vassili Grossman chama de "ascetismo laboral". Ter aquele ar de quem vive libidinosamente para o trabalho, concentra tudo no trabalho, olhos de trabalho, ouvidos de trabalho, pele de trabalho. Quase uma erótica do trabalho, que, nalguns casos mais obscenos chega mesmo a ser pornográfico.
Eu até nem desgosto de trabalhar e enfrento com um certo estoicismo este sisífico destino que carrego diariamente às costas. Mas do que gosto mesmo, mas mesmo mesmo, é de não trabalhar, do poder ascético do ócio. Não quero parecer frívolo e cruel numa altura de tanto desemprego. Claro que é horrível estar desempregado. Só que não me refiro ao prazer de não ter emprego, falo, sim, do prazer de não trabalhar quando se tem emprego. São tantas as coisas boas que só podemos fazer por não estarmos a trabalhar que acabo por não perceber por que raio não está toda a gente como eu quando chego ao trabalho: com ar de suicida, de quem anda de joelhos às voltas no santuário de Fátima  ou que segue de perto a crise no PS.
Esta coisa de glorificar o trabalho, de o colocar no centro da nossa existência, é bastante cultural. Tal como é cultural esta história de avaliar a pessoa pelo tipo de relação que tem com o trabalho. Não só os outros mas também como cada um se avalia a si próprio. Em grande parte a culpa é dos capitalistas que exportaram para todos essa ideologia de classe dominante mas também de Marx, aquele que descobriu que a ideologia dominante é a ideologia da classe dominante. Quer dizer, apanhou-os mas ficou ele próprio também apanhado. Marx viu no trabalho a essência do homem. Ser humano é ser fundamentalmente trabalhador. Aos 20 anos ainda consegui ser marxista durante alguns meses mas, depois, sempre que pensava nesta filosófica divinização do trabalho, começava logo a bocejar, espreguiçar e com vontade de me embalar numa cama de rede  num pinhal depois de uma sardinhada.
Depois, só de me lembrar no modo como a propaganda soviética glorificava os operários e os camponeses, como se fossem aqueles casais felizes dos fascículos que as Testemunhas de Jeová me vêm dar à porta, a minha vontade era fugir logo de novo para uma indolência e languidez pré-rafaelita, pré-rafaelitas, que eram contemporâneos de Marx em Londres. Um dia fui ao cemitério de Highgate e fiquei impressionado com o túmulo do Marx. Enquanto a Christina Rossetti ou a Elizabeth Siddal, estavam ali mortas com aquela tranquilidade atávica com que apareciam quando vivas, só que em vez de serem os limos da Ofélia ou as flores da lady Lilith, eram heras tumulares, o pobre do Marx, mesmo depois de morto continua a ter de suportar todos os dias o "WORKERS OF ALL LANDS, UNITE". Ok, tal como as etéreas pré-rafaelitas, também está na morte como foi visto em vida, mas já merecia algum sossego.
O tal ascetismo laboral de que fala Grossman não deixa de implicar um certo snobismo laboral. Exibicionista, claro, como todo o snobismo. Há pessoas que exibem descaradamente a sua dedicação ao trabalho como alguns santos exibem as suas chagas e as mãos estigmatizadas. E do mesmo modo que esses santos pretendem ser os campeões da santidade, trabalhadores há que fazem do seu empenho e abnegação profissional o seu orgulho pessoal. Eu, confesso, não consigo perceber. E estou à vontade para o dizer pois tenho alturas em que também me farto de trabalhar. Farto-me de trabalhar mas se pudesse não trabalhava, nem faço disso um factor de glória pessoal. Não transformo cada hora de trabalho excessivo numa medalha para pôr ao peito, que olhem para mim com um misto de admiração e compaixão por muito trabalho. O que eu queria é que tivessem inveja de mim por não trabalhar mas eu acho é que em muitos casos, têm mas é inveja de quem trabalha ainda mais.