30 setembro, 2014

ARCANA IMPERII

Katia Shausheva

Uma colega trouxe-me hoje uma caixa com dióspiros que, vindos de uma árvore, mais pareciam ter caído do céu. Finalmente. Foram os primeiros, embora tardios, deste ano, depois de um longo ano sem os ver. Eu já tentei explicar aqui os extáticos desvarios que esse divino fruto desentranha nos meus mais libidinosos covis, mas quando os vejo, toco e sorvo avidamente, é que percebo que as minhas inexpugnáveis pulsões voltam a derrotar as palavras represadas na sua etérea impotência.
É precisamente num dia assim, que marca a fronteira entre o dia-antes-de-ter-comido-dióspiros e o dia-depois-de-ter-comido-dióspiros, que melhor entendo o abismo entre o domínio público da linguagem e a arca das nossas experiências privadas. Nem estou a pensar agora no problema dos qualia e da incomunicabilidade de sensações, como quando alguém diz que lhe dói o dedo ou que lhe sabe bem um chocolate e não sentimos a dor e o prazer que o outro sente embora saibamos o que é a dor e o prazer.
Neste caso estou só a pensar em palavras (nomes) que não passam de etiquetas que usamos quase sempre de um modo perfunctório. Por exemplo, «Setembro». Ou «Outono». Nós dizemos «Setembro» ou «Outono» por que é o que toda a gente diz e a fascista da língua nos obriga a dizer. «Setembro» é «Setembro» porque já foi o sétimo mês do calendário. Pronto, ok, mas o que tenho eu que ver com isso? Por que tenho de chamar a este mês de dióspiros de que gosto tanto, «Setembro»? E por que tenho de chamar «Outono» ao «Outono» se nunca fui um agricultor romano do tempo em que se falava Latim? «Outono» para mim são as nozes, as passas de figo, as compotas, o cheiro das lareiras, a água-pé cozida pelo frio, os primeiros agasalhos, a música coada pela penumbra dos fins de tarde, ler com uma manta nos joelhos como um velho que se perdeu da idade, a natureza que ganha novas cores graças à água que cai do céu como uma benção.
No meu mundo privado, Setembro deveria chamar-se qualquer coisa como «Diospirário» e «Outono» devia ser substituído por uma palavra que conseguisse juntar as cores do Outono, desde o amarelo-mostarda ao castanho ocre, o fresco do outono, o som dos passos sobre as folhas caídas do Outono, os cheiros do Outono, a luz do Outono, uma boca quente deixando um rasto de saliva no meu rosto frio num lusco-fusco outonal, o sabor das castanhas numa noite fria da Golegã onde o fumo quente e a humidade fria se misturam num tempero quase metafísico. E um dióspiro que se desfaz como luxuoso veludo na pele da boca.
Mas isso é impossível, e mesmo que não o fosse, ninguém iria entender essa minha língua privada. Seria como um emigrante que pensa na sua própria língua mas que depois tem de recorrer à língua que adoptou para se fazer entender. A língua, é verdade, pode ser um império fascista ao qual tivemos de nos submeter sem podermos escolher. Mas cada um de nós é também um império de sensações escondidas que merecem ser libertadas e tornadas independentes. Podemos não ser capazes de comunicar com ninguém, é verdade. Mas ficamos com uma arca íntima só para nós na qual, sim, podemos finalmente comunicar connosco mesmos, e resistir à afasia emocional que nos transforma em meros altifalantes de uma língua intrinsecamente morta sobre a qual tosquenejamos sem darmos por isso.