16 setembro, 2014

A ARCA INFINITA

Francesca Woodman |  House #3, Providence, Rhode Island, 1976

«A arte, e só ela, me salvou! Parecia-me impossível abandonar este mundo antes de ter transmitido tudo que sentia ter dentro de mim». Testamento de Heiligenstadt

Entre muitas outras coisas, Beethoven escreveu 9 sinfonias, 16 quartetos de cordas, 32 sonatas para piano, 12 trios para piano, violino e violoncelo, 10 sonatas para violino e piano. Tudo coisas que, para usar as suas palavras, sentia dentro de si e que traduziu musicalmente.
Beethoven morreu em 1827 mas poderia ter morrido antes, por suicídio, doença ou acidente. Mas também poderia ter morrido depois. O meu exercício é o seguinte: e se não tivesse morrido em 1827 mas em 1832, tendo continuado a transmitir «tudo o que sentia» dentro dele? E se Mozart tivesse morrido, vá, aos 50 anos? E Rembrandt 8 anos mais tarde? E se Cervantes pudesse ter vivido para escrever uma outra obra da dimensão do Quixote?
Tudo isto me faz pensar que, para além de uma história da música, pintura ou literatura, há também uma história das músicas, pinturas ou livros que não existem. Não se trata de coisas que não existem porque não teriam mesmo de existir. Não estou a pensar na inexistente obra de um pintor que nunca existiu mas cujas obras, se tivesse existido, estariam hoje nos principais museus do mundo. Ou até mesmo no que Beethoven não viria a compor se tivesse morrido no berço e não em 1827. Isso já será levar demasiado longe a especulação acerca do nada, tornando-a demasiado vazia. Penso em coisas que iriam existir e que só não existem porque quem as iria fazer deixou de existir. Fica-se assim com a estranha sensação de uma coisa que, apesar de nunca ter existido, ficou perdida. Assim como uma obra que ficou para sempre no fundo do mar após um naufrágio antes de ter sido alguma vez vista sem ser pelo seu criador, ou que esteja perdida no interior de uma arca, algures numa cave soterrada.
Há tempos foi descoberto em Florença o que parece ser um trabalho de Leonardo da Vinci. Nós nunca havíamos sentido a falta desse trabalho porque não sabíamos que existia e não podemos sentir falta do que não sabemos que existe. Mas agora que sabemos já não conseguimos viver com a ideia de não existir, do mesmo modo que já  não conseguimos imaginar a não existência da 9ªsinfonia de Beethoven.
Ora, uma descoberta destas obriga-nos a pensar na importância de uma espécie de existência: a existência das coisas que não existem. Existência que, de um ponto de vista das impressões, não nos pode deixar tristes por não podermos vê-la, ouvi-la ou lê-la. Uma pessoa que cegou pode ficar triste por não poder ver os quadros de Rembrandt ou uma pessoa que ensurdeceu por deixar de ouvir a música de Beethoven. Mas não podemos sentir tristeza por não ouvirmos ou vermos o que nunca existiu. Porém, deixa-nos com a certeza de que tudo o que existe e que conhecemos, apesar de imenso, é apenas uma ínfima de uma ínfima de uma ínfima parte desse infinito mundo das coisas que nunca chegaram a existir, uma arca de nada mas cujo peso é esmagador.