19 agosto, 2014

VALMONT DA SILVA


Numa das cartas da Marquesa de Merteuil ao Visconde de Valmont, ela chama-lhe astuto mas joga com a ambiguidade existente entre rouerie (astúcia) e roué (devasso). É o próprio autor que, numa nota, sugere a relação entre ambas as palavras, sugerindo assim a ideia de que a Marquesa quereria chamar devasso ao Visconde mas sob a capa de uma palavra bem mais aceitável, social e moralmente.
Na língua portuguesa não é possível este jogo de palavras e, por isso, jogar com a ambiguidade da Marquesa. De facto, devassidão é devassidão, astúcia é astúcia, sendo tão distintas quanto as palavras elefante e crocodilo, copo e chávena, árvore e  rio. Mas uma coisa é a nossa língua portuguesa, outra será o nosso mundo mental e, aqui, devassidão e astúcia confundem-se como na escrita da Marquesa de Merteuil, havendo qualquer coisa de elogioso nessa irónica ligação como sucede com a maliciosa aristocrata senhora. Ela conhecia a natureza algo perversa do Visconde mas gostava dele assim. Também muitos portugueses terão a consciência de que existe qualquer coisa de errado e imoral na devassidão de muitos outros portugueses. Mas não deixam de admirar e invejar a astúcia que lhe está ligada e que a torna possível. Intimamente, também gostariam de ser assim, se tivessem astúcia para isso. Felizmente, não têm. Já bastam os outros.