17 agosto, 2014

PERCEBES

Diane Arbus | Girl in a Watch Cap, 1965

A indução é um tipo de raciocínio muito usado na investigação científica, mas também, sem darmos por isso, no nosso dia-a-dia. Por exemplo, é por um processo indutivo que acreditamos que amanhã o sol irá nascer ou que não morremos envenenados por comermos cogumelos do supermercado. Se o Sol nasceu até agora, temos então fortes razões para pensar que amanhã irá nascer, se não são conhecidos casos de envenenamento por comermos cogumelos do supermercado, logo, tendemos a pensar, e correctamente, que podemos continuar a comê-los. Porém, é também no dia-a-dia que os naturais processos indutivos da mente humana se podem tornar perniciosos, sobretudo em questões morais ou comportamentais.
Depois da sua grande viagem, Darwin dedicou-se, na sua própria casa, ao estudo dos Cirrípedes (percebes). Só isso explica o facto de um dos seus filhos ter perguntado ao filho de um vizinho: «Em que parte da casa é que o teu pai trabalha com os Cirrípedes dele?». Esta história é engraçada mas se levarmos isto para questões mais sérias, as coisas podem começar a complicar. Compreender o que consideramos normal ou anormal acaba também por resultar de um mecanismo de certo modo indutivo. O que é normal? O que costumamos ver à frente, aquilo de que temos experiência, que fomos habituados a ver e a prever. O que não é normal? O que não costumamos ver nem prever à frente. Infelizmente, vejo muita coisa à minha frente que gostaria de não ser obrigado a ver por achar que não é normal. Eu não considero normal uma coisa só porque a vejo à minha frente. Faço antes por poder ver à minha frente o que penso ser normal. Para mim, é normal aquilo que eu faço por conseguir ver porque é isso que percebi que desejo ver e continuar a ver. E é isso que faz do meu olhar um olhar de adulto e não o olhar de uma criança como o filho de Darwin, ou de todos os adultos que, apesar de o serem, só são capazes de ver o mundo com os olhos dos outros.