21 agosto, 2014

O ROUPÃO

Richard Brooks | Gata em Telhado de Zinco Quente [fotograma]

«Chegada àquele templo de amor, escolhi o roupão mais galante. É um vestuário delicioso, de minha invenção: não deixa ver nada, e faz adivinhar tudo». (carta da Marquesa de Merteuil ao Visconde de Valmont)

Com esta frase, toca a marquesa com o dedo na mais sensível ferida do erotismo. Mas não é o corpo humano que me faz emergir agora do melífluo torpor do ócio estival. É a corrupção em Portugal, embora, na verdade, associada à sensual magia do corpo erotizado. Só que, neste caso, através de um movimento inverso ao invocado pela Marquesa: a roupa não deixa ver nada mas faz adivinhar tudo, a corrupção faz adivinhar tudo mas não deixa ver nada.
Olhando para a sociedade, seja para o mundo da política ao mais alto nível, das autarquias, das empresas, das finanças, toda a gente consegue adivinhar sinais de corrupção. Os sinais exteriores de riqueza aí estão para toda a gente ver, admirar, bajular. Mas, ao mesmo tempo, sem nada se ver, como se tudo não passasse de um sonho que rapidamente se evapora nos meandros da justiça, dominada por advogados com poderes sobrenaturais, leis ambíguas ou altos e promíscuos interesses. E tal como acontece com o vestuário sensual, há também na corrupção um jogo do olhar, um jogo entre quem vê e quem é visto. A grande diferença é que no caso da corrupção, quem vê contenta-se apenas em imaginar sem nunca chegar a pôr os olhos em cima do seu obscuro objecto de desejo. Tão perto, tão visível, tão tangível. Tão longe, tão invisível, tão inatingível também.