13 agosto, 2014

O PERFUME


Devia ter uns 12 anos quando me ofereceram um perfume, o Eau Sauvage, da Christian Dior. Na altura, apesar do meu pai ter uma perfumaria  e de eu passar muitas vezes por lá, ainda não me via como alguém passível de usar um perfume. A partir do momento em que o possuí passei a ser possuído por ele. Passou a ser muito mais do que um cheiro que eu adorava: era parte da minha identidade, um espelho olfactivo através do qual me via e reconhecia. Entretanto, com a idade, fui-me desligando dele, assim como dos perfumes em geral. Usei um ou outro outro mas sem grande convicção, apenas como perfumes e nada mais do que perfumes, alimentos de pequenas e irrisórias vaidades.
Muitos anos depois deu-me um ataque de nostalgia e, por impulso, resolvi comprar um frasco de Eau Sauvage. Rapidamente me arrependi e acho que acabei por deitá-lo fora. O cheiro era o mesmo mas eu já não era o mesmo, olhando para ele como se olha para um brinquedo perdido no sótão, que vemos com saudade mas com o qual já não somos capazes de brincar. Reconheci o cheiro mas não me reconheci nele e, como tudo na vida, o que importa não são as coisas mas as coisas em nós ou nós nas coisas.
É muito raro entrar em perfumarias mas quando entro não resisto e gosto de o ir cheirar. É sempre com um infantil sentimento de esperança na reconciliação que me dirijo até ele, que sim, que desta vez é que vai ser, que vou finalmente voltar a reencontrar-me com aquele cheiro como sendo o meu cheiro. Ainda há dias isso aconteceu e até mostrei aos meus filhos o meu cheiro de quando era ainda mais novo do que eles são agora. E, mais uma vez, falhei. Ainda não foi desta que lá voltei e sei agora que será definitivo. Tive um cheiro, mas perdi-o e hei-de morrer inodoro.