12 agosto, 2014

O AXIOMA DE HITCHCOCK

Charles Laughton | The Night of the Hunter [fotograma]

Tenho uma relação difícil com os telejornais. Os telejornais visam a realidade, a realidade é aborrecida, logo, os telejornais são aborrecidos. A ficção é bem mais interessante do que a realidade, seja na literatura, no cinema, no teatro ou na pintura. Houve tempos em que eu via telejornais motivado por um sentido de dever cívico, inspirado ainda na geração anterior, fortemente politizada e mentalmente sociológica. Mergulhado numa espécie de estádio ético kierkegaardiano, sentia-me cidadão, e era como cidadão que acreditava que um verdadeiro cidadão tem de estar bem informado. É-se cidadão na cidade e se não soubesse o que se passava na cidade lá se ia a cidadania, evadida por um quixotesco ralo para se perder numa subterrânea alienação. Via ainda nessa esforçada adesão à realidade uma necessidade básica de segurança e de orientação. Quer dizer, se eu vivo na realidade, logo, devo conhecer a realidade para não me perder nela e nela poder sobreviver o melhor possível. Enfim, uma chatice mas uma chatice necessária, assim mais ou menos como estudar o código quando se tira a carta de condução. Tão fascinante como um poste de electricidade mas necessário.
Com o envelhecimento fui percebendo que a realidade é um luxo demasiado fútil para perdermos muito tempo com ela. Dai a minha relação difícil com os telejornais. Acontece, porém, que o envelhecimento ao tornar-nos menos ingénuos torna-nos também mais cínicos. Daí ter passado a olhar para a realidade com base no axioma de Hitchcock sobre o cinema: quanto melhor o bandido, tanto melhor o filme. Felizmente, ou infelizmente, conforme o meu estado de espírito mais cristão ou maquiavélico, não faltam motivos para me sentar comodamente para mais uma sessão.