15 agosto, 2014

15 DE AGOSTO

Murillo | Imaculada Concepción de los Venerables, 1679

Estava para ir ao banco logo de manhãzinha cedo quando, por mero acaso, descobri que era feriado. Sim, claro, 15 de Agosto, esse feriado bastardo, queimado, perdido no meio de um mês em que o tempo pára. Estivesse eu a trabalhar e já andaria há uma semana a sonhar com este feriadinho. Eu sempre achei este feriado de Agosto um tremendo desperdício, tipo ventoinha no Polo Norte ou uma prancha de surf no meio do deserto.
O mesmo não se passa com os outros. Feriados são coisa rara e por isso sempre os encarei com devoção e carinho. Tanto se me dá como se me deu que Portugal fosse uma república ou uma monarquia; não sou sindicalizado e a última vez que devo ter dito "Fascismo, nunca mais" teria para aí uns 15 anos e devia estar a querer impressionar alguma garina da JCP com um crachá do Che Guevara; e acho Portugal um infeliz acidente histórico por causa de birras feudais. Mas fui sempre um fervoroso republicano nos dias 5 de Outubro, completamente anti-castelhano nos dias 1 de Dezembro, fortemente anti-fascista nos dias 25 de Abril e nos 1º de Maio acordo sempre com uma exacerbada consciência sindical que me leva mesmo a nutrir um comovente sentimento de veneração por Mário Nogueira. Excepto, claro, se esses dias calharem num fim-de-semana. O que eu quero são os feriadinhos e o resto é conversa. E se então calharem a uma segunda ou uma sexta, sou mesmo pessoa para, conforme a data, ver-me ao espelho e descobrir um activíssimo dirigente sindical, achar que tenho a voz rouca de D. Duarte Nuno ou ficar com vontade de provocar bascos e catalães.
Eu não sou católico, nem tenho religião, mas se tivesse uma jamais seria a católica apesar de gostar mais da dramática teatralidade das igrejas católicas do que da asséptica sobriedade das protestantes. Mas há um surpreendente católico escondido no fundo do meu ser que, nos dias de Corpo de Deus ou de Todos os Santos, surgia à superfície, ao poder ficar na caminha em vez de ir trabalhar.
Pode parecer algo sacrílego o que estou a dizer. Admito que sim. Mas se pensar que a lógica do bem e do mal é também uma questão estatística, já ficarei com a consciência mais apaziguada, uma vez que o meu sentir deve ser o sentir da esmagadora maioria dos católicos que fazem de Portugal um país católico em vez de protestante ou ortodoxo. Não sou católico, insisto, mas é com filosófica apreensão que vejo os parcos vestígios católicos que ainda restam, estarem a desaparecer.
Daí eu achar que este feriado em Agosto se trata de um erro de casting. Devia ser numa altura do ano em que a esmagadora maioria das pessoas estivesse a trabalhar, contribuindo desse modo para atear um pouco mais a já muito fraca chama católica que alumia as consciências religiosas dos portugueses. E nem sequer vejo objecções de natureza teológica e dogmática. O calendário celeste não se compadece com a lógica do calendário humano. O que conta é o elevado simbolismo das coisas e não vejo ninguém no no céu, incluindo a própria, a importar-se com a ideia de a Assunção de Maria poder ser em Novembro ou Março em vez de 15 de Agosto. À consideração papal.