24 julho, 2014

TURISMO

Federico Fellini | 8 1/2 [fotograma]

Já aqui abordei a praga dos selfies. E, aqui, a fotográfica incontinência motivada pelo facebook. Como sei dosear os meus impulsos sádicos não irei bater mais no ceguinho por causa de uma notícia como esta. Pelo contrário, até nem percebo a razão para tanto alarido na rede social por causa desta vulgar fotografia de uma moça toda sorridente a selfizar-se em Auschwitz. A rapariga é uma turista e é enquanto turista que o faz, daí a sua inocência. Parva inocência, mas inocência.
Falemos um pouco de turismo. Quando as pessoas fazem turismo vão aos sítios onde é suposto ir. Por duas razões. Por um lado porque são sítios considerados importantes porque os milhares ou milhões de turistas que nos antecederam também lá foram e se lá foram é porque são importantes. Por outro lado, porque são efectivamente os mais bonitos. Não há nada de errado nisto. Se uma pessoa vai passar um fim de semana a Paris, Roma ou Praga não deseja ir parar a um  monótono e triste subúrbio para andar por lá a passear.
A questão é o turista passar pelos sítios turísticos com a ilusão de que foram especialmente edificados para que os turistas, séculos depois, tenham sítios turísticos para ver. No fundo, é como se o universo turístico fosse uma espécie de parque de diversões histórico, feita de castelos, praças, ruas, pontes, palácios, pirâmides, que foram construídos há séculos para que os respectivos países se pudessem vir a tornar atracções turísticas. Claro que o turista sabe vagamente alguma coisa sobre o castelo. Mas isso até nem é o mais importante. O mais importante é ter lá estado e ficar encantado com a espectacularidade do sítio para o fotografar e auto-fotografar-se nele, num processo em que o esvaziamente histórico é inversamente proporcional à dilatação do eu. Sabe-se vagamente que Neuschwanstein foi mandado construir por um rei chanfrado, o castelo de Almourol pelos Templários, a Grand Place de Bruxelas pelos comerciantes lá da terra e o Hermitage por Catarina II. Importante mesmo é que eles tenham sido feitos, que estejam lá, para nós podermos lá ir, como se fosse esse o seu objectivo. A essência militar de um castelo? Onde é que isso já vai. O castelo é apenas um sítio giro para passear, e se tiver uma vista bonita como o de S. Jorge melhor ainda. E o que é válido para a essência militar de um castelo é-o também para a essência religiosa de um mosteiro ou de uma catedral, a essência social e económica de um rua, praça ou ponte, a essência política de uma batalha. Ou de um campo de concentração.
Turista que se preze, quando vai à Polónia, deve passar por Auschwitz. Claro que as pessoas sabem por que vão lá, já viram nos filmes ou até documentários sobre isso. O holocausto foi uma tragédia e as pessoas sabem disso. Não estou a desumanizar o turista, a retirar-lhe a capacidade de se sensibilizar com o sofrimento dos outros. Mas o sofrimento de Auschwitz é compensado com a agradável experiência de se ter estado num sítio cujo sofrimento é mundialmente conhecido graças aos filmes.
Eis a experiência desta rapariga, o que motiva a sua satisfação, a sua alegria. No fundo, é a continuação do filme ou do documentário mas agora na sua cabeça, transformada num lugar imaginário onde apenas ela existe feliz e contente.