11 julho, 2014

TASQUINHAS

Willy Ronis

Há muito que está na moda organizar eventos com tasquinhas. A própria câmara municipal aqui da paróquia acabou de organizar uma dessas coisas onde a palavra "tasquinha" é rainha. Ora, a palavra "tasquinha" é uma daquelas que me faz logo ter vontade de puxar pela pistola.
Como se não bastassem vulgaríssimos restaurantes armados ao pingarelho cujos nomes começam por "Taverna", ainda temos de apanhar com o amaricado conceito de “tasquinha”, uma espécie de tasca em versão azul-bebé, uma aberrante e despudorada traição à velha e honrada tasca de outros tempos. Aqui na terra nunca houve uma Casa das Ratas como ainda hoje, felizmente, na honrada cidade de Tomar, mas as tabernas tinham nomes que faziam jus à sua identidade. Ia-se para a taberna do Mário Russo, do Abílio, do Bué. Ou ia-se simplesmente para o Mal Atilado, o Zé da Ana, o Léu ou a Cova Funda, tascas a sério com serradura no chão (não aquela vulgar mistela que se come à sobremesa), e sem a famigerada ideia pós-moderna da decoração e do tradicional transformado em gourmet como hoje se vê por aí para enganar os turistas semanalmente despejados pelas low cost.
Mas o que são actualmente as ditas tabernas ou as (até tenho vergonha de dizer) tasquinhas? Limitam-se a explorar sem vergonha a nossa fome de uma autenticidade perdida. Mas uma pessoa que vai a um restaurante chamado Taverna d’el Rei engana-se a si própria, julgando que voltou ao bom sabor dos velhos tempos. Depois comem-se coisas que pelos nomes que ostentam são enganadoras. Por exemplo, o “doce da avó”. Eu já não suporto olhar para uma ementa e encontrar “doce da avó”. Pronto, estou farto e fico agoniado só de pensar nessa mixórdia com natas, leite condensado e bolacha torrada da qual as nossas inocentes avós não têm qualquer culpa. Os mais despudorados têm a lata de apresentar pratos como bifinhos com cogumelos. Mas desde quando é que um homem a sério come uma coisa chamada “bifinhos” num sítio que se apresenta como taberna? Uma coisa acabada em “inhos”? Dá-se o leitinho ao bebé, põe-se a papinha na mesa, ele pede aguinha quando tem sede e nós damos. Agora meter um homem a comer bifinhos não tem pés nem cabeça. Na velha taberna alguma vez se comiam “bifinhos”? Ok, havia os molhinhos ou os jaqui­zinhos. Mas não tem nada a ver. Porque os bifinhos são uma degeneração do honrado bife com batatas fritas e ovo a cavalo. Agora, os mo­lhinhos e os jaquizinhos são molhinhos e jaquizinhos porque se chamam mesmo assim. Não há molhos nem jaquins.
Não nos enganem mais. Não chamem taverna a um restaurantezeco sem identidade nem doce da avó ao Macdonald´s das sobremesas. Se querem fazer qualquer coisa que possa lembrar a antiga taberna ponham ao menos serradura no chão em vez daquela que só serve para deseducar o paladar que séculos de bom gosto gastronómico levaram a construir.