05 julho, 2014

RATOS E HOMENS

Joseph Szabo | O Sonho do Salva Vidas, 1972

Eu passo a vida a saber de descobertas científicas completamente disparatadas ou de uma confrangedora irrelevância. O mesmo não acontece com esta notícia. Trata-se de um dado empiricamente consistente e cuja importância não deve ser desprezada. Dramática importância, aliás.
Não estou só a pensar ser a Filosofia filha do ócio. A própria cultura, seja a literatura, a pintura, a música, etc., é um produto do ócio, não enquanto actividade que distrai, que entretém, mas só possível em virtude de uma atitude contemplativa e solitária. Quem cria? Cria quem reflecte, quem explora os sentimentos, quem se dispõe a explorar a sua vida interior, quem consegue escutar o ego absconditus que existe em cada criador, mas para isso é necessário estar só, inactivo, indisponível para o mundo e para os outros.
Ao contrário do que se passava noutros tempos, em que o ócio e o lazer estimulantes eram um privilégio da aristocracia, hoje, o cidadão comum dispõe cada vez desses dourados e preciosos lingotes de tempo em que é suposto nada acontecer. Todavia, é cada vez mais gritante a incapacidade do cidadão comum para estar só, para estar calado, para estar sem comunicar ou sempre a engolir mais e mais dados da realidade, como se esta fosse um insaciável pistoleiro a cravejar-nos o espírito de balas, incapacidade para estar tanto com o corpo, como com o espírito em absoluto repouso. O resultado natural é um aumento óbvio da estupidez, da tagarelice, da distracção enquanto actividade que serve apenas para nos dissuadirmos de nós próprios e daquelas partes do mundo que temos cada vez menos capacidade para enfrentar. Parecemos cada vez mais aqueles ratinhos que não conseguem parar de se divertir na rodinha, é o que é.