21 julho, 2014

PANGLOSS NO SUPERMERCADO

Bror Johansson | Rua Estreita

Hoje, no supermercado, dirijo-me para a zona das caixas para pagar. Vejo três, mais ou menos juntas, com duas ou três pessoas e paro numa delas. Entretanto, descubro lá mais ao fundo uma outra caixa apenas com uma pessoa e, sendo eu um ser racional que aprendeu a agir em função dos dados objectivos que a realidade oferece, resolvo dirigir-me para lá. Mais contente fiquei quando, ao chegar, me apercebo de que a senhora, tendo já só meia-dúzia de coisas no tapete rolante, estaria prestes pagar.
Mas é precisamente no momento de ela pagar, e quando eu já tenho todas as minhas compras no tapete, que se gera uma confusão. A senhora puxa de vários cupões de desconto, mais do cartão Continente e põe-se a problematizar certas coisas que não entendi mas que obrigaram a funcionária a pegar no telefone para esclarecimentos. Os minutos passam, desesperado penso voltar para as outras caixas mas percebo que com as compras todas no tapete e já com gente atrás de mim, não daria jeito nenhum. Para o desespero ser maior, olho para as outras caixas e vejo sair pessoas que já teriam ficado atrás de mim no caso de eu ter optado por uma delas, enquanto eu permanecia bloqueado na minha, a melhor de todas as caixas possíveis no momento em que chegou o momento de sair.
Irritado, chamei estúpido a mim mesmo, descomplacente ternura a que me vou habituando cada vez mais. Mas não devia. Uma das coisas que a idade já me devia ter ensinado é que a razão pouco vale perante a força da realidade. A razão humana tem poder mas a realidade, depois de termos atravessado largas e iluminadas avenidas parisienses, acaba muitas vezes por nos surpreender com obscuras, húmidas e esquinadas vielas nas quais ouvimos cinicamente rir dos nossos mecanismos de decisão orientados pela lúcida e previdente razão. No céu é a porta que é estreita, na vida, são as ruas. Se o dr Pangloss tivesse ali aparecido naquele momento para tentar apaziguar os meus trémulos neurónios teria levado com um iogurte líquido na cabeça. Até porque nessa enorme Teodiceia que é um supermercado limpo, geométrico e iluminado, um iogurte no chão não seria motivo suficiente para derrubar o seu optimismo. E eu sairia mais aliviado.