23 julho, 2014

OFF THE RECORD

David Seymour | Maria Callas, Roma, 1956

Comecei a ler uma biografia de Bach. Passados alguns minutos, tal era o entusiasmo, adormeci. Quem me manda a mim ser parvo? A confundir as músicas das nossas vidas com as vidas dos nossos músicos?  Pensando agora no que me terá levado a ler a biografia de Bach, encontro apenas uma razão: a música de Bach. Fosse Bach um compositor menor ou um funcionário régio e jamais quereria saber da sua vida. Foi o o impacto da sua música que me levou então a uma idolátrica curiosidade sobre a sua vida.
Mas bem vistas as coisas, tal curiosidade nada tem que ver com o prazer da música que me levou a desejar descobrir os invisíveis bastidores desse enorme e uniquíssimo compositor. O homem é uma coisa, a música que esse homem compôs, uma outra completamente diferente. Idolatria é uma coisa, melolatria outra. Se eu quisesse ser santo ainda podia dedicar-me a hagiografias várias e aí, sim, observaria diligentemente as vidas dos meus putativos modelos. Mas raios, eu não quero ser santo, só quero ouvir  música.
Eu poderia falar numa motivação cultural, sei lá, dizer que conhecer a vida de Bach é também conhecer o século XVIII. Mas isso é treta. Fosse isso e eu poderia ler antes uma biografia de Frederico II ou de outra personagem qualquer do século XVIII. Ou mesmo ler coisas gerais, curiosidades relacionadas com o século XVIII. Não, eu não fui à procura de século XVIII nenhum mas da vida de quem compôs música que tanto prazer me dá ouvir.
A ilusão está no facto de imaginarmos que as vidas dos nossos compositores preferidos se confundem com o que faz deles os nossos compositores preferidos. Porém, apesar de eu pouco saber das vidas dos meus compositores preferidos e menos preferidos, nada me diz que as vidas dos primeiros são mais  interessantes só por serem compositores maiores, independentemente de serem mais dramáticas ou menos dramáticas, mais românticas ou menos românticas, mais emocionantes ou menos emocionantes. A minha desilusão com a vida de Bach nem é bem a desilusão de quem se iludiu por estar à espera de revelações particularmente interessantes. Não sabia muito a respeito da sua vida mas sabia o suficiente para não esperar pormenores vibrantes, incluindo os relativos à sua produtividade paternal. Não, é mesmo uma desilusão, digamos assim, ontológica, de quem se iludiu a misturar dois segmentos de realidade que depois facilmente se descobre serem descontínuos sem nunca se encontrarem.
Imagino alguém que vindo de um planeta onde só existe escuridão, aterra num belo prado durante a Primavera, em pleno meio-dia, e que fica fascinado com a luz que invade e ilumina toda a bela realidade estendida diante dos seus olhos. Procurando então a sua origem, acaba por descobrir, finalmente, o Sol, para o qual se põe a olhar directamente. Ora aqui está uma analogia cheia de potencialidades para pensarmos em tanta gente que brilha por esse mundo fora.